Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Lobos em Pele de Cordeiros

Por debaixo das vestes de bom samaritano existem interesses ocultos nas ações empresariais de responsabilidade social.

Por Viviane Cabrera


Capitalismo Selvagem - Visando somente ao lucro, corporações maqueiam suas intenções com ares de bom-mocismo.




Por longa data, as empresas fixavam-se nos lugares sem dar importância aos danos que causavam à comunidade local e ao meio ambiente. No entanto, a pós-modernidade trouxe à tona esse tipo de questionamento, fazendo com que esse setor repensasse suas ações e desenvolvesse projetos para dar algum retorno - seja à população ou à natureza - dos lucros obtidos.
Para fidelizar seus acionistas, fornecedores e consumidores, as corporações fazem amplos estudos sobre os impactos ambientais e problemas que mais preocupam a sociedade. Esse tipo de pesquisa é enviada a sociólogos e antropólogos, sendo encomendada inclusive uma pseudossolução como forma de dizer que sua contribuição foi dada.
Prática que se iniciou na França através da prestação de contas dos investimentos sociais das empresas, foi nos Estados Unidos que ganhou notoriedade sob a designação de balanço social. Mas aqui abaixo dos trópicos, o Brasil aderiu à ideia somente em 1976, quando foi criada a Associação dos Dirigentes Cristãos das Empresas (ADCE), consolidando-se na transição do século XX para o XXI.

Fatores Decisivos

Argumentos como a reorganização do capital e a mudança do cenário econômico, aumento da desigualdade social, crescimento da violência urbana e insuficiência do papel do Estado implicaram a intervenção privada, com ações sociais baseadas no resgate à cidadania.
Entretanto, sempre há um senão. Atualmente, algumas empresas utilizam-se desse tipo de recurso não só para distrair o público de sua real intenção, mas também como forma de conseguir isenção fiscal, fazer lavagem de dinheiro e outras coisas que vão de encontro com o chamado comprometimento ético. Para alguns críticos, a aplicação de um regulamento internacional seria uma solução viável para garantir que o termo "responsabilidade social" ganhe veracidade.
Em campanhas supostamente em prol do meio ambiente, empresas tropeçam nas justificativa. Um belo exemplo disso é a Unilever e sua proposta de inovação - com um sabão líquido concentrado para lavar roupas - aliada a menores índices de carbono emitidos na atmosfera. Responsável pela assessoria de imprensa, Liane Lionel afirma: "Cálculos da Unilever indicam que se todos aderissem ao novo OMO Líquido Super Concentrado teríamos menos 130 mil toneladas da emissão de gás carbônico por ano, o equivalente a 37 mil carros a menos nas ruas".
Fica claro que o interesse da marca, na realidade, não passa de uma estratégia empresarial que visa a um retorno positivo no faturamento, nas vendas, como também à melhoria da imagem institucional junto aos consumidores.



terça-feira, 9 de novembro de 2010

Água Tônica Existencial

Por Viviane Cabrera





Água tônica sempre foi um ótimo auxiliar no combate aos males do estômago e fígado. Pelo menos para mim. Todas as vezes em que padeci de crises do gênero jamais fiquei desapontada, pois esse milagroso líquido funcionou a contento.


Fico cá pensando com meus botões que, ultimamente, as principais preocupações humanas são as existenciais. E algo me leva ao tilintar de neurônios: tal qual a ideia fixa que se equilibrava no trapézio de Brás Cubas, uma agarrou-se à meu sistema neural e de lá não mais saiu.

Imagine só se, sob a promessa de um alívio instantâneo, surgisse no mercado internacional (olhe minha modéstia!) um líquido que combatesse os males da existenciais! Seria algo explêndido, não? Com publicidade do tipo "A Insustentável Leveza do Ser", minha revolucionária água tônica de quinino seria associada à algum psicotrópico que arrancasse a cruz carregada pelo indivíduo desde seu nascimento. Millan Kundera teria lá sua parcela de culpa pela escolha do slogan.

Deixo claro que não entendo nada de farmacologia. Talvez seja apenas a mesma sede de nomeada de Cubas me assaltando de mansinho... Sem conhecer o terreno à que me proponho explorar chega a ser somente uma pretensão.

Entretanto, com um pouco mais de reflexão, sinto-me uma Macabéa que longe de ser passiva, busca desesperadamente algo que sacie suas dores da alma. Seja uma aspirina ou uma água tônica existencial. E se Freud não explicar, com toda a certeza, Clarice Lispector o fará.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Filosofia Hortifrutigranjeira do Amor

Por: Viviane Cabrera




Pedro Almodóvar me entenderia. Só ele para analisar a beleza e a desgraça das coisas de forma tão brilhante. Um sentimento, por mais penoso que seja, tem sua magnitude assegurada justamente por existir.

Diz a lenda que no começo do mundo homens e mulheres eram um só corpo. No entanto, em razão da desobediência aos deuses, a esfera foi dividida ao meio. Sendo assim, o castigo dos seres humanos seria a eterna procura por seu par. Mitos à parte, por longo período o gênero feminino acreditou que não haveria vida fora do casamento. Nasciam sob a dependência do pai, passando para a do marido e terminando por depender dos filhos. As perspectivas de mudança eram quase nulas. Alguns valores alteraram-se, gerando um outro tipo de comportamento na sociedade.

Com a emancipação da mulher e sua entrada definitiva no mercado de trabalho, ela deixou de se preocupar com o lado afetivo e passou a dar mais atenção à sua formação acadêmica e à questão da competência profissional. O que antes era submissão ao sexo oposto, tornou-se competição.

No âmbito dos relacionamentos a competição chegou a tal nível que a mulher, em seus atropelos ao tentar galgar um espaço a que antes não tinha acesso, masculinizou-se. Ouso dizer que, talvez o único traço de feminilidade que ainda carregamos é a maternidade. Pois é através dela que mantemos contato com o divino, perpetuando o ciclo da vida e garantindo a existência da espécie humana na Terra.

Mas, como toda regra tem sua exceção, algumas teimam em achar que somente o "príncipe encantado" as fará despertar desse sonho ruim em que vivem. Traduzindo segundo Cazuza, são "carentes profissionais". Em meio a amores masoquistas (visto que trazem mais sofrimento que felicidade), suspira-se pelos cantos, sonhando com um final feliz.

Todavia, a loucura deste tempo em que nos encontramos leva a algumas reflexões: o homem agora tem medo e não sabe mais como lidar com essa "nova mulher", enquanto que ela experimenta uma liberdade dúbia, mas também acredita que só será completa com um homem a seu lado.

Apesar dos pesares da pós-modernidade, enquadro-me na última definição. Parece mesmo que abriguei um porco espinho dentro do meu coração: a cada vez que ele tenta aconchegar-se, os espinhos ferem de tal forma que não sei se choro ou se me alegro.

Fosse em outra época, declararia sinceramente meu amor com requintes poéticos de Vinícius de Moraes. Mas agora, não. Não posso dar o braço a torcer. Mesmo porque, e se ele não der a mínima? Onde fica o orgulho nisso tudo, hein?

Encerro com uma certeza em mente: o amor é uma via de mão dupla e eu uma barbeira, fazendo ultrapassagens proibidas. Quem sabe um dia, com um desses cursinhos de reciclagem que a vida dá, eu aprenda de fato que sou completa mesmo sendo a azeda metade da laranja.





segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mais Um Eco

por Viviane Cabrera



Tem alguma coisa inflamada aqui dentro. Eu sei que tem. Já ando a alguns dias revirando na cama e com suores estranhos. Os pensamentos dão tantas voltas e transformam a situação em algo nauseante. Médicos me visitam com frequência, mas tudo é em vão. Cada remédio prescrito, alimenta a doença.
O medo que dá é de um dia acordar como Samsa, metamorfoseada em um inseto nojento e repugnante aos olhos dos outros - ainda que em pouco tempo eu me acostume à nova condição. Suportar sobre o dorso as pressões advindas da sociedade, família e demais células das quais faço parte sem a promessa de uma libertação. Já não sei mais se Atlas foi sábio em aceitar o castigo ou se ensandeceu de vez.
Entre delírios de Ícaro e reflexões aludindo a realidade, a febre toma conta do corpo e faz com que trema cada mísera parte dele. Passo a passo, essa coisa se alastra tal qual notícia ruim em cidadezinha pequena. Vai além das minhas vontades e aspirações, percorrendo os caminhos físicos e espirituais que encontra em mim.
Caso tenha um elixir milagroso, gostaria de testá-lo. No entanto, o ceticismo à que fui compelida impede que eu acredite ainda. Trilho por caminhos tortuosos há tempos. Ninguém estendeu a mão para levantar o corpo que viram caído no meio da estrada. Jamais vi comoção nos olhos das pessoas às quais conheci.
Talvez esse meu coração vagabundo, gauche por natureza, precise dos parafusos de que tenho a menos na cabeça. Sentimento enfraquece a mente e debilita o corpo. Está comprovado pelo que vejo atualmente: uma garota sem GPS para localizar seu paraíso, doente por não poder alçar vôo para encontrá-lo.
Quem sabe um dia, terei alguns minutos próxima do Sol que me guia. Fatídicos minutos que podem modificar toda uma existência. Poço de sentimentos quixotescos, assim sou eu. Por isso me mantenho viva. É por esses simples momentos que suspiro aqui reclusa em meu microcosmos particular.
"Liberdade Ainda Que Tarde!", bradou o herói no ápice de sua história. Assassinaram o homem, mas não houve jeito de suprimir seu grito. Quero também poder gritar para registrar na alma de quem ouvir minha ânsia de viver. E, hei! Se eu quiser pular, por favor, não me segure. Às vezes preciso voar.

domingo, 20 de junho de 2010

Ultrapassando Barreiras, Criando Caminhos

Diante de obstáculos e adversidades, Lise Forell usa sua arte como forma de manter intacta sua liberdade.


Por Viviane Cabrera


Holocausto – Lise Forell dá cores ao horror que enfrenta nos tempos de juventude.


Cores vivazes, pinceladas firmes, traços fortes. Vida e arte combinam-se, mostrando que a artista plástica Lise Forell é tão intensa quanto suas obras. No auge de sua existência, a matriarca de 86 anos fuma calmamente próxima a mesa de canastra. A fumaça do cigarro confunde-se com a névoa de suas lembranças.

As paredes de sua casa são de um branco reluzente e têm em si os quadros da pintora dando movimento ao ambiente. E em meio a tantas cores e formas, um gato albino de nome Ice salta de um móvel a outro da sala. Das muitas peculiaridades de seu lar, o que mais intriga é a sensação de se estar num mundo à parte. A atmosfera é de bonança após a tempestade.

E turbulência é algo que Lise conhece bem...

Gênesis


Bravamente uniformizado, o tenente Otto Forell combate ao som de memes entoados por sacerdotes e presencia todo o sangue derramado na Primeira Grande Guerra Mundial, chacina que leva muitos de seus companheiros de armas. São horrores que ficaram gravados em sua memória e que pautam suas reflexões sobre conduta a partir do fato.

Condecorado e bem visto pela sociedade, casa-se com uma moça astuta, porém de poucos atrativos físicos, chamada Grete Fischel. Esta consegue transformar o ex-herói de guerra em namorado indeciso, daí para noivo apagado e, finalmente, em marido submisso. Quando, em 1924, nasce Lise, a mãe vê a oportunidade de realizar enfim suas ambições enquanto para o pai a primeira e única filha do casal representa a tímida esperança de passar adiante alguns de seus ideais. Para a mãe, a criança deveria ter a beleza que nunca pode ter para si. Para o pai, a pessoa que se formava seria íntegra e digna em suas convicções. No lugar das exigências, dedica apenas amor e atenção à pequena.

Desde que o mundo assim o é, acomodamo-nos ao formato machista da sociedade em que as mulheres aí estão somente para servir. Cuidar da casa, criar os filhos de forma impecável, atender ao marido virtuosamente, ser boa filha e cidadã. Esse é o modelo convenientemente imposto ainda na fase pueril.

Com pressões advindas de diversas esferas de poder sobre o ser humano fêmea, a mulher abdica de si para assumir ao marido, filhos e demais cargas do casamento. Dessa forma, anula-se para que assim possa servir ao outro de maneira incondicional, sem reservas. Transforma-se então, em um objeto manipulável em primeiro lugar pelos pais, depois pelo marido e por último pelos filhos. Simone Beauvoir sentencia que não podemos chamar a isso de mulher. “Não se nasce mulher. Torna-se”, diz categoricamente a autora. O que mostra com esse axioma é que não basta surgir sob o gene sexual xx. A percepção de feminilidade vai muito além disso. Sob a égide do existencialismo, afirma que a construção do feminino se dá através das escolhas que se faz ao longo de cada trajetória, seja em qual âmbito for.
Por vários fatores fortemente influenciados pelo acaso, Lise escolhe as veredas que o afetuoso pai lhe apresenta. Graças ao genitor e suas máximas é que constitui suas bases de pensamento, visão de mundo e, mais tarde, adere à ideologia socialista. A mãe decepcionada pela filha não corresponder as suas expectativas, resolve investir na formação educacional da menina.

Entre aulas de francês, patinação, ballet, tênis, natação, inglês, esqui na neve - e outros exercícios físicos e intelectuais - observa através da janela de sua alma as peculiaridades da existência e dos indivíduos, imprimindo essa ótica a seus primeiros esboços. Nas instituições de ensino as quais passa as professoras sempre repreendem seus pais, pedindo para que não a ajudem nos desenhos. O que elas se furtam a saber é que Lise os faz sozinha.


Em busca da terra de Canaã

O momento político europeu afeta sua vida familiar. Tendo como causa principal as imposições do Tratado de Versalhes, a Alemanha, assolada economicamente, insurge-se beligerante sob o comando de Adolf Hitler contra o restante da Europa.

O estadista aproveita-se da situação e finca a bandeira nazista no coração da massa germânica - trapos ambulantes à espera de uma força que os resgate das circunstâncias em que se encontram. São zumbis que obedecem cegamente àquele que lhes aponte uma luz ao final do túnel, uma figura paternalista que tome para si os problemas que enfrentam e os alivie das dores. É o que o povo alemão necessita nesse momento.

Hitler, um austríaco de palavras firmes, mostra à sociedade aquilo que considera os reais causadores do mal que assolou o país: judeus, ciganos, homossexuais, deficientes, poloneses, eslavos e Testemunhas de Jeová. A Europa é contaminada por esses ideais totalitários e os judeus que se recusam a viver em guetos segregacionistas são obrigados a fugir para outras terras.

Preocupada com o rumo dos acontecimentos, Grete resolve enviar a filha para a casa dos avós maternos na Bélgica. A garota então se sente sufocada pelo excesso de zelo e falta da liberdade que tanto preza. Em 1939, com a iminente invasão das tropas nazistas alemãs, foge com seus pais, avós, tios e prima num conversível para a Espanha. Mas com Franco no poder, famílias judias estavam proibidas de entrar em solo espanhol. Marselha passa a ser seu novo destino.

Após instalar-se em uma pensão, consegue vistos a preços acessíveis para o Brasil. Mas só em 1940 é que embarca com os parentes a bordo do navio Alsina rumo à Terra de Vera Cruz. Contudo, repentinamente o navio muda seu curso e ancora em Casablanca. Todos os tripulantes são levados para um ônibus que finalmente desliga o motor em meio a uma paisagem desértica com os dizeres na placa do portão “Camp Sidi El Aiashi”. O coração de Lise estremece.

Para extravasar sua revolta, tal qual Anne Frank - guardadas as devidas proporções - retrata em seu diário a degradação do ser humano num campo de concentração. Compõe, então, Sem Happy End. Como em todo lugar acontece, um delator entrega seus desenhos ao comandante. Este, vendo-se incapaz de julgar tal traição manda-lhe para o chefe de polícia de Casablanca.

E é nesse contexto que encontra sua tábua de salvação. O homem que deveria julgar seu caso interessa-se pela jovem destemida de apenas dezessete anos. Sr. Bourel faz com que Lise e sua família mudem-se para Casablanca. Apesar das intensas tentativas, o chefe de polícia não conseguiu nada mais do que a promessa de um encontro amoroso. Ao passo de quinze dias, Otto consegue novos vistos para o Brasil com a ajuda de organizações para refugiados e embarcam no navio “Cabo de Buena Esperanza”. Em 25 de setembro de 1941, depois de uma viagem marítima de tamanha ansiedade, pisa em solo brasileiro: “Me senti brasileira desde o primeiro momento. Chegamos no carnaval, o clima era maravilhoso. Estávamos no Rio de Janeiro. Os mais velhos criticavam a sujeira, a desorganização e a desigualdade de classes. Mas eu só conseguia prestar atenção no céu”, lembra com um brilho ofuscante nos olhos, “É que na Europa é tão cinza no inverno... E aqui no Brasil, o cenário, o sol e o céu... abrasileirei-me naquele instante”.

Por aqui, quem está no poder é Getúlio Vargas. Simpatizante das ideologias totalitárias toma uma postura centralizadora e autoritária no período que vai de 1937 a 1945. Tratava-se por Estado Novo o resultado de um plano forjado pelos integralistas, que justificava o golpe como forma de proteger o Brasil da ameaça comunista. Apresentado pelos galinhas-verdes ao presidente Vargas, não mais precisou de pretextos para concretizar aquilo que Getúlio mais queria: o poder absoluto em suas mãos.

Algo que associa-se a imagética criada em torno do Pai dos Pobres, é o fato de possibilitar o acesso das mulheres a todos os setores da sociedade com os direitos abstratamente reconhecidos. O hábito sustentado até a atualidade impede a concretização real do ideal revolucionário francês que prega a “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” como forma de garantir justiça a quem quer que seja. Os homens continuam a obter vantagens em vários âmbitos, inclusive no profissional.

Recentemente, um site da internet especializado na divulgação de vagas de emprego trouxe à tona resultados óbvios aos olhos de todos. A pesquisa feita pela empresa comprova com dados numéricos que a diferença salarial entre os dois sexos vem crescendo ano após ano. Apesar de as mulheres serem mais bem preparadas academicamente, a porcentagem desse desnível em 2010 assusta: trata-se de 75,38% de um abismo que afasta profissionais femininos dos masculinos.

Fugir aos paradigmas, correr atrás daquilo que acredita e que faz bem. Essa receita, segundo a artista, é o segredo de sua longevidade e bom humor.


Eva e a Maçã

Grete sofre o martírio de não ver em sua filha as qualidades que queria para si. Contrariando a visão da severa mãe, a criança cresce cheia de atrativos e torna-se uma mulher de fibra.

Na infância, a pequena coleciona pedras, brinquedos, magazines. Entretanto, na fase adulta passa a colecionar conquistas. A bordo do Alsina faz sua primeira, apesar do orgulho ostentado pelo rapaz que dizia jamais se casar com uma judia, Lise transforma numa obsessão o fato de fazê-lo seu esposo e é vitoriosa em seu intento. Porém, o caótico relacionamento com Herbert Lowe Stukart dura o tempo suficiente para que gere um filho, Gregori.

Abandona o marido, pois não se sente bem em ver o amor que tinha - um dia chamas – em brasas prestes a se apagar. Refugia-se ainda grávida na casa de campo de uma amiga. Assim que seu filho nasce, Grete o toma de Lise sob um pretexto que logo cai por terra. Os acontecimentos fazem com que Lise encha sua alma e esvazie num curto período de tempo.

Com os braços e bolsos vazios segue maquinalmente rumo a “Terra Mater”, uma pousada onde já havia passado férias. Faz trabalhos de decoração e pintura em troca da hospedagem e comida. Todavia, recebe dos Bevilacqua muito mais do que isso. É com Leonardo, filho caçula da família, que a fênix trava novo romance. Longe de conseguirem a aprovação da família de Leonardo, os dois deixam tudo para trás e seguem num velho carro para São Paulo.

O desespero da falta de notícias de Gregori dá lugar a um novo alento: nova gravidez e novo casamento – desta vez com a benção de um Rabino. Com um filho a cada um ou dois anos, a família passa a ser integrada por oito pessoas.

Os anos passam e mais uma dança sentimental das cadeiras ocorre, cuja qual Lise já conhece o ritmo e tem jogo de cintura o suficiente para dar a volta por cima. Prepara suas coisas e deixa o lar. Os filhos, em sua maioria já adultos, resolvem trocar o conforto pela companhia da mãe e seguem com ela para outro endereço. Somente após casar-se e tornar-se pai é que Gregori, que sempre viveu com a avó, a chama de mãe. Coisa que preenche o vazio que tinha até então.

Colecionar afetos, pessoas, vitórias. Essa é sua força motriz. As pedras que aparecem no caminho estão lá justamente para serem removidas. E se depender de Lise, o trator estará com o motor sempre em stand by.




Na intimidade de seu microcosmos - Lise Forell e Eu (Vivi Cabrera).


A mulher que não virou esmoreceu


Patrícia Galvão é uma mulher plena do desejo pela vida, convicta de suas ideologias políticas e a frente de seu tempo. Emma Bovary é um ser apagado que veste o uniforme da “mulher padrão” que a sociedade lhe entrega. A primeira, apesar de amar e constituir família, sofre graves pressões da sociedade por sua postura vanguardista. A segunda, aceita a pesada carga sobre seus ombros, mas arrepende-se amargamente. Qual a ligação entre as duas? No emaranhado de seus destinos, ambas escolhem a chave em que está escrito Cafarnaum. A consolação que encontram – uma no engajamento político e também na realização enquanto mulher e mãe, outra no suicídio como forma de escapar da ideia insuportável de ser mais um objeto decorativo – as salva do tédio de se perceber comum.

Lise Forell também teve acesso a essa chave. Casou-se por duas vezes, teve sete filhos e adotou uma criança – por conta da impossibilidade de não mais dar herdeiros ao segundo marido, o que fez com que perdesse o valor aos olhos do esposo. Nos dois relacionamentos, jamais se deixou dominar. Quando sente a impossibilidade da levar adiante o casamento, arruma suas coisas e abandona o ninho. Duas vezes: esse é o número exato para os momentos em que teve de recomeçar do zero.
Coragem, tenacidade, decisão e um singular senso crítico das coisas. Isso definitivamente a ajudou em sua trajetória artística e pessoal. Faz escolhas e sustenta a carga de responsabilidades que advém das mesmas: “Pago qualquer preço por minha liberdade” comenta, “por isso trabalho até hoje e pretendo fazê-lo até onde conseguir. Faço o que eu gosto. Quer incentivo maior?”.

Compõe suas telas seis horas por dia, além de lecionar em seu atelier. Vive das aulas que dá e da comercialização de suas obras. “Sou tão desapegada ao dinheiro que vendo os quadros e esqueço de receber os pagamentos. Além disso, alguns alunos pintam de graça comigo” refere-se a criticas que recebe de pessoas materialistas que prezam mais pelas obrigações do que a própria vida.

Outra distração de que é afeita é o jogo de canastra. Monta campeonatos com suas amigas - senhoras da aristocracia alemã - e com os netos. Aliás, orgulha-se pela mentalidade dos netos ser compatível a sua, ainda que politicamente deixem a desejar – segundo sua visão.

Sobre o atual momento político brasileiro, a judia socialista – como a própria se define – é otimista quanto aos rumos do país: “O Brasil tem muito para crescer e penso que chegará lá. Não troco este país por nada. A Europa, desenvolveu-se até o máximo. Não há mais para onde crescer. Tanto que sem ter mais o que inventar, agora estão afeitos à banalidades e tendem a ir à direita no que tange a política. Para Israel, onde mora a Débora – minha filha que é judia ortodoxa -, também não sei se iria. As pessoas defendem muito os árabes e fecham os olhos para os judeus que ainda são mortos. Coisa de decapitar um judeu e depois jogar futebol com sua cabeça. Por essas e outras é que amo o Brasil. É um lugar pluralista e ecumênico. Aqui todos convivem em plena harmonia. Ou pelo menos, tentam”.

Com uma lucidez e bom humor invejáveis, vive até hoje de suas aulas de pintura e de retratar nas telas o hipotético que nos leva a sonhar, sem deixar de lado sua temática política. Suas obras retratam bem sua visão de mundo. Nada escapa a seus olhos de lince. Pinta para retratar a desigualdade social, corrupção na política, discriminação de qualquer natureza, crítica a costumes e tradições obsoletas que engessam a sociedade, omissão do ser humano diante de determinados assuntos, religião, sentimentos. Participou de várias exposições e ainda hoje recebe convites para viajar o mundo com sua arte - Lise é especializada em arte naif, primitivista.

Avó de 21 netos, tudo o que quer é criar e instigar o criador que está latente no ser humano. “Educo os meus como oriento meus alunos: quero que despertem seus talentos, mas respeito suas particularidades. Não há como ensinar algo pronto. Cada um é cada um”. Pois a fórmula dá certo. Todos estão formados – ou pelo menos a caminho de – em boas instituições de ensino e com um caráter e conduta impecáveis.

Com ar de missão cumprida, Lise Forell desabafa em meio a tragadas de realidade e baforadas de expectativas: “Posso, sem mágoa nem revolta, mergulhar nas reminiscências e cuidar de muitas lembranças. Tanto as más quanto as boas”.







terça-feira, 25 de maio de 2010

O tempo passa, as oportunidades também

por Viviane Cabrera



Oportunidade é algo que surge em nossa vida de uma forma especial. Certo dia, alguém me disse: "Aproveite as oportunidades, pois pode ser que elas não batam mais em sua porta, encaminhando-se a outro endereço". Caso para se pensar...


Às vezes e em determinadas circunstâncias, até as pessoas mais pró-ativas do mundo sentem-se num dilema. São situações em que, talvez, uma atitude (seja de que natureza for) venha a prejudicar algo que por si só já é delicado.

A sociedade atual é uma caixinha de surpresas. Ao mesmo tempo que se espera uma reação negativa, aparece uma positiva. Existem muitos traumas, fobias e preconceitos que acabam por incutir receio no ser humano, quanto a relacionamentos de todo o tipo. Tanto que interpretamos a falta de atitude numa pessoa como sendo indiferença por nós. A primeira coisa que pensamos é: "Se ele(a) se importasse comigo, faria assim, faria 'assado', mas teria alguma atitude". Contudo, não podemos afirmar ao certo o que se passa no pensamento e no coração do outro.

Dizia já Kierkegaard que quem ousa perde-se momentaneamente, do contrário, podemos perder para sempre. Prefiro dar a "cara à tapa" à ficar imaginando como seria se tivesse tomado a iniciativa. Vivo de coisas concretas. Foi-se o tempo em que idealizações eram mais importantes que atitudes. O tempo não pára e as oportunidades não esperam. Pense bem.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Solidão

por Viviane Cabrera


Só. Sozinho só se está quando nada se tem ao seu redor.

Só. Tão somente contando com o acaso.

Só. Vazio que nem mesmo a multidão pode sanar.

Só. Intensidade de um sentimento que se sente...

Só. Sem saber se há sentido nessa lacuna sem fim.

Só. Somente a consciência de que tem de ser assim.

Mente Ociosa

por Viviane Cabrera


“Concordo com D. Quixote: o meu repouso é a batalha”. Pablo Picasso


Reinterpretando um velho ditado, Picasso nos leva a refletir. Só faz história aquele que dá o primeiro passo em direção a ela. Ficar isolado no aconchego de sua casa pode até aliviar nossas dores e fazer com que esqueçamos dos problemas. Contudo, ao abrir a porta da “fortaleza” veremos que eles permanecem a nossa espera do outro lado da rua. O melhor a fazer sempre foi enfrentá-los.

Certa vez, durante uma meditação, a monja budista Cohen disse-me: “Pense em seus problemas hoje. Parecem-lhe enormes e extremamente importantes. Porém, imagine-os daqui cem anos. Ainda conservarão a mesma importância?”. Nunca me esquecerei destas sábias palavras... Pena que meu imediatismo fale mais alto...

sábado, 22 de maio de 2010

LOVE.COM

por Viviane Cabrera



Tão efêmero quanto a existência,

é o amor numa época como esta.

É um software onde "n" fatores são executados.

Mas ainda assim, erramos ao fazer o download.

Desejo

por Viviane Cabrera



Desejo. Delírio juvenil congelando a razão.

Subterfúgio da insensatez camuflado de luz.

Desejo. Ardência nas profundezas das entranhas.

Conhecimento do próprio corpo no contato com o outro.



Sabe-se quando ele domina, mas não como dominá-lo.

Apenas o sugerir desperta a natureza mais violenta.

A repressão serve para aumentar a chama.

O impossível excita.



Sensações que urram sofrivelmente.

Prazer que reveste todos os poros.

Gozo, libertador de neuroses.

Religião fiel às inclinações naturais.



Interação de vales e montes epidérmicos.

Preenchimento de lacunas fixamente momentâneas.

Evolução de atos e palavras.

Proximidade entre o âmago e o público.



Ingenuidade da ânsia pelo macho.

Antagonismo envolvente e valoroso.

Luxúria maliciosamente angelical.

Desejo. Fera aprisionada num Anjo.

Coagulação

por Viviane Cabrera



Girassol, gira lua,

Rodopiem estrelas

vivendo e ouvindo a melodia da criação.



Aguardente, água morna,

água para todos os gostos.

Purifica o corpo,

lava a mente e liberta a alma.



Passatempo, passa gente,

passa tudo.

Só não passa a hora

quando se quer que tudo passe.



Corredor, corre angústia.

Foge para longe de mim.

Só quero ser feliz em qualquer idade.

Felicidade.

Travessia

por Viviane Cabrera





Navegando pelo mar bravio

de pensamentos que vem e vão.

Na ressaca da baía do acaso

os acontecimentos concretizados,

fatos estabelecidos,

memórias tumultuadas

que vem e que vão.



No barco do destino,

marinheiro louco em seu desatino,

tenta guiar sua vida.

O mar se agita,

sua alma grita.



As ondas banham sua existência,

reavivando a essência

de que ninguém é senhor do tempo

e que a vida traz coisas

que vem e que vão.

Viver um dia por vez

por Viviane Cabrera


 


O despertar da manhã com aroma de café.

A limpeza espiritual de um banho demorado.

O ruído estrondoso do sinal da escola.

Pessoas menos esclarecidas que eu na classe.

O lápis que parece ter vida própria.

O livro revoltado com a ingratidão.

A borracha exausta por dar sumiço em meus erros.

O caderno cheio de palavras sem objetivos.

O tempo deixa a desejar.

Já é hora de retornar à casa materna.

Telefonemas e papos-furados.

E eu a esperar por aquilo que nem sei se acontecerá.

O manto da noite toma conta do céu.

O brilho das estrelas ilumina meus pensamentos.

Refletir, para filosofar, para progredir.

Nada melhor que viver um dia de cada vez...



Desperto em uma nova manhã.

O aroma já não é o mesmo.

Meu espírito já não é tão puro.

Não há mais sinal nem escola..

Lápis e livro, borracha e caderno, não correspondem mais às minhas expectativas.

O tempo parou e não retorno mais à casa materna.

Telefonemas, já não os tenho e não espero mais.

Em meus dias só há noites escuras e caladas.

Já não reflito ou progrido: ESTOU MORTA...

Universo Particular

Por Viviane Cabrera




De uma só feita, toquei o sol e derreti meu ser.

Plutonizei meus sonhos e objetivos.

Sem nada a dizer, respiro a pesada atmosfera de monotonia,

à qual me deixo envolver.

Anelada a saturnos imaginários,

vago, perdendo-me na poeira cósmica da Circe insaciável das minhas aspirações.



Ascendo ao vácuo,

aguardando retorno de galáxias que desconheço;

desbravando planetas sonoramente estéreis;

fixando estrelas em buracos negros...



O que resta na luminosidade veloz do meu banzo

é a ânsia de descobrir uma lua que guie minhas marés,

nas rotações translacionadas deste planeta em extinção.

Poema da Mulher Só

por Viviane Cabrera





Quero alguém ferozmente amável.

Que encoste sua face em meu peito.

E compreenda toda a minha angústia.



Quero um sábio.

Que observe minhas fases lunares.

E decifre a função poética do meu corpo.



Quero um maestro.

Que ocupe de cifras minha vida.

E me acompanhe na melodia do destino.



Quero um santo.

Que purifique meu ser com suas máximas.

E me batize nas águas do acaso.



Quero um homem.

Que envolva meu ser com um abraço.

E com um olhar, eternize nosso laço.

“A gente escreve como quem ama” Clarice Lispector

Por Viviane Cabrera


                                                                          

Acaricia o papel, meio de expressão. Sopra as palavras, que se encaixam prontamente onde bem lhes aprouver. Admira o conjunto de sua obra... Lembra-me muito o poema de Olavo Bilac, no qual o mesmo traça um paralelo do ourives com o escritor (ou poeta). Não é qualquer coisa que se põe no papel, não! Tem de filtrar as idéias. E uma vez que encontra aquela ao qual se encaixa em nosso propósito, ainda é necessário lapidá-la.


Tornamo-nos uma espécie de observador imparcial, analisando os fatos e pessoas isoladamente (sem nenhum remorso, piedade ou complacência). Sofreguidão, ardor, entusiasmo, amor ao ofício: são estes os combustíveis. Interpretamos os fatos ao nosso modo. Contudo, isto não quer dizer que omitimos ou mesmo alteramos a verdade. Ainda que sob várias versões, a veracidade estará latente em cada sílaba impressa e expressa das almas sensíveis.

De como não desandar a massa

Cientista político analisa o cenário atual do país e comenta sobre a participação da TV nesse angu.


                                                           Por Viviane Cabrera



Inicia-se mais um ano eleitoral e, com ele, emissoras de televisão preparam-se para liderar a audiência durante os programas de debate político. São esses os momentos decisivos em que alguns candidatos se sobressaem e acabam por ganhar uma eleição.


Desde a redemocratização do Brasil, vemos que os meios de comunicação passaram a divulgar conteúdos de caráter propagandístico, beneficiando a determinados políticos e partidos. Dessa forma, os veículos utilizam-se do direcionamento de informações através desse suporte que tem grande alcance entre eleitores em todas as classes sociais e com interesses distintos.

Entrevistado sobre o assunto, o cientista político Humberto Dantas* afirma que o posicionamento das mídias televisivas já foi mais escancarado. Autor de vários livros sobre democracia e o cenário brasileiro atual, crê que a isenção está próxima da utopia, dado que em certas circunstâncias é correto que um veículo de comunicação se posicione para que possa ofertar ao espectador a possibilidade mais precisa de saber onde está pisando.

Apesar de defender a transparência no posicionamento ideológico, programático e de crença política, o cientista diz temer o grande perigo que está nos “donos do poder” midiático. Explica-se com o fato de no Brasil existir um exagerado contingente de políticos que são proprietários de emissoras de TV. Garibaldi Alves tem uma afiliada da Globo, José Agripino tem uma afiliada da Record, Micarla do SBT e assim por diante.

No livro O Ataque a Razão, de Al Gore, o autor afirma que a televisão é o maior meio de (des) informação de massa, mantendo seus telespectadores reféns e exercendo o poder de influenciar no comportamento de toda uma sociedade. Estaríamos então fadados a nos transformar em “audiência receptiva” ao invés de cidadãos informados? Sob a ótica de Dantas, somos acomodados.

Ele ainda complementa mencionando que no Brasil a sociedade sabota o Estado a todo o momento e cultua o pouco caso com a coisa pública. Segundo o teórico, “a TV colabora com esse tipo de abismo. Mas fica aqui um dilema de causalidade: a TV é ruim porque a sociedade é ruim, ou a sociedade é ruim porque a TV assim o é? Com alta capacidade para se adaptar e mudar sua grade de programação conforme as demandas captadas em pesquisas, se a sociedade for educada e se tornar mais crítica, a TV muda”.

O advento das novas mídias contrapõe o que Al Gore coloca em seu livro quando mostra que a má influência da TV se dava por não ter participação de seu público e ser um conteúdo, de certa forma, imposto. No entanto, o que mais parece uma discussão sobre Corinthians versus Palmeiras só terá fim depois de toda uma reestruturação da mentalidade brasileira. Pois num país onde um ignorante ganha milhões e o piso salarial de um professor é de 850 reais, não podemos falar em seriedade. Estamos no limite.



*Humberto Dantas é Cientista Político, professor da Universidade São Camilo. Co-autor do livro A Introdução à Política Brasileira (Editora Paulus, 2007), apresentador do programa “Despertar da Cidadania” que é exibido das 06h30 às 7h00 aos sábados na Rádio América (AM 1410 MHz). Faz trabalhos em parceria com o Instituto Legislativo Paulista, ministrando cursos gratuitos de Iniciação Política que visam à conscientização da sociedade.

Eternos Descartáveis

Reciclando conceitos de movimentos artísticos do passado, a indústria cultural acaba por eleger erroneamente objetos cotidianos e outros absurdos como representação inovadora da realidade.
                                                      
                                          Por Viviane Cabrera
                                                 
                                                     

Em tempos idos, um artista tinha de ter por trás de si um mecenas, a Igreja ou o Estado, isso garantia sua visibilidade no mercado bem como seu sustento. Graças a esse tipo de auxílio, grandes nomes como o de Leonardo da Vinci e Michelangelo despontaram para a eternidade. Sorte nossa.


A arte contemporânea, no entanto, caminha segundo a trilha maniqueísta que Umberto Eco definiu nos conceitos de “apocalípticos” e “integrados”. Tentando equilibrar-se na corda bamba das tendências e exigências do cenário nacional e internacional, fazem-se necessários talento, esforço, persistência e muito estudo sobre os vários ismos como um meio de conceber algo que tenha identidade própria. Porém, a batalha entre bem e mal culminou na vitória dos integrados, que submetem o indivíduo a aceitar sem criticidade alguma todos os produtos de cultura de massa que lhe são apresentados.

Entretanto, para despontar como revelação ou manter-se na área, há entraves no sistema que dificultam demais esses objetivos. “Ambas as coisas demandam esforço. Hoje em dia a arte é uma mistura ao bel-prazer de quem a faz. Existem vários padrões de análise para defini-la: composição, harmonia, tema. Mas esses padrões variam muito conforme os gostos e interesses de críticos. Assim, obviamente, existe uma manipulação”, desabafa o artista plástico Vicente Conte, que está na carreira desde os tempos de faculdade, quando se uniu aos colegas de curso e montou um ateliê. A ideia foi criar um espaço de ajuda mútua, dado que não eram apadrinhados nem pertenciam a famílias abastadas.

No pós-modernismo, elencaram-se como fruto de genialidade muitas obras um tanto excêntricas, principalmente a partir da arte por designação – apresentada por Marcel Duchamp na primeira década do século XX em que com seu ready-made expôs um urinol sob o título de Fonte - e da desconstrução da mesma como forma de aproximá-la da realidade cotidiana de cada um. Incomodado pelo presente momento, Luciano Trigo, jornalista e estudioso de artes plásticas, publicou em 2009 o livro A Grande Feira: uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea (Editora Record) em que faz uma crítica mordaz às novas formas de mascarar como inovação algo que já foi visto no passado, de maneira original. Utilizando-se de exemplos reais para ilustrar sua afirmação acerca da degradação cultural, mostra como este meio vem perdendo a face apocalíptica que a distinguia da banalidade.

Em entrevista ao programa Almanaque da Globo News (vídeo publicado em 29/11/2009 no portal Globo.com), Luciano apresenta exemplos, comparando a arte com as constantes oscilações do mercado financeiro. Um deles é o caso da obra The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living (A impossibilidade física da morte na mente dos que vivem), de Damien Hirst.

Apesar de levar a fama, Hirst somente idealiza suas obras, mas são seus funcionários que realizam o trabalho de montagem. Tratava-se de um tubarão morto, colocado em um tanque e mergulhado em formol. O artista foi promovido por um agente que, antes de adentrar nesse meio, era publicitário. Tais foram as técnicas para divulgá-lo que o tubarão foi vendido a um empresário britânico pela simples soma de 12 milhões de dólares. Contudo, dois anos após sua aquisição, o terror dos mares começa a se decompor.

Insatisfeito com o pequeno dissabor, o colecionador entra em contato com o artista para que juntos encontrem uma solução. Consenso entre os dois foi a ideia de substituir o animal em estado de putrefação por outro em bom estado. Seria a arte, hoje, tão frágil e efêmera quanto esse tubarão? É essa pergunta que o autor nos deixa a martelar a cabeça.

“Nem toda loucura é genial, nem toda lucidez é velha.”. Essa frase de Chico Buarque de Hollanda ilustra a caixa de pandora que tem se mostrado a contemporaneidade, com a eleição de potes recheados de fezes como representação artística da realidade. Com o panorama atual contaminado, resta-nos apenas aguardar por um futuro mais asséptico.