Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O Aniversariante


Por: Viviane Cabrera



O clima era de consternação. Pairava um silêncio estrondoso a um canto e cochichos maliciosos a outro. Os olhares eram de espanto. Até que em alguns instantes, as pessoas começaram a ir embora – como se a ausência pudesse apagar o que sucedera ali.

Vinte e quatro de maio. Era aniversário de Oswaldo. Cinco décadas completas de muito trabalho, grandes esforços para conquistar diversas coisas e uma linda família formada por esposa, três filhos e um neto. Motivo de sobra para comemorar. Dois dias antes iniciaram os preparativos. As bebidas estavam para gelar, os quitutes tomaram forma e a decoração da casa estava pronta.

Chegado o dia, todos se arrumaram de maneira impecável. A não ser Oswaldo. Esse se vestiu displicentemente. Camisa verde listrada com mangas curtas, colocada por dentro de uma calça cáqui adornada pelo cinto marrom escuro com marcas do tempo. Desceu as escadas e viu a casa cheia. Eram parentes, amigos, conhecidos, desconhecidos e agregados de todos eles. Deu de ombros.

As bebidas estavam sendo servidas. O aniversariante sacou uma delas da bandeja que rodopiava na mão do garçom pela sala. As pessoas o paravam por onde passava. Eram votos de felicidades, elogios e piadas sem graça. Mas Oswaldo estava alheio àquilo tudo. Como se apenas o corpo estivesse presente, não sua alma.

Após horas naquele torpor, uma sacudida o fez acordar. A filha pedia para que o pai se dirigisse à cozinha, onde cantariam parabéns.

E naquela melodia compassada, o homem fitava os rostos como se analisasse friamente a um bichinho estranho que se encontra no jardim. O estranhamento o consumia. Queria correr, gritar. Queria sair dali.

Um “Faz o pedido, pai!” o acordou mais uma vez. Olhou firme para o bolo – retangular, com uma boa altura, o que significava que o recheio estava caprichado -, assoprou as velas e fez o que deveria fazer. 

Saiu de lá sem dizer palavra. Retornou à sala com a quietude em si próprio. Os filhos abraçam Oswaldo e perguntam quase que em coro: “Diz aí, velhão! O que você pediu, hein?”.

Silêncio. O aniversariante estava com os olhos fixos no chão e nas mãos um copo de uísque. Sem modificar a expressão, um sorriso tímido e diabólico o fez disparar:



- Pedi para morrer.


Quem estava ao redor julgou tratar-se de uma pilhéria, uma brincadeira somente. Não era. Dava para ver no semblante do homem. Um mal-estar pairou na casa e os familiares de Oswaldo sentiram-se como que traídos. “Como pode alguém em sã consciência pedir a própria morte na celebração de seu nascimento?”, questionavam uns aos outros na tentativa de assimilar tal fato.

Oswaldo emudeceu. O sorriso cáustico continuava em seu rosto. Parece que se encarcerara em um mundo paralelo, divertindo-se com o ocorrido. Podia ver um quê de cômico naquilo tudo e degustava o instante com o apetite de predador faminto.Todavia, o que mais lhe causava satisfação era comunicar o que sempre quis.

Foi o grito que estava preso há muito na garganta. Não queria deixar de ser criança. Cresceu sob a pressão do tempo e circunstâncias as quais não pôde optar. Namorou sem querer compromisso. Teve de casar, graças a uma gravidez indesejada. Nunca quis ser um whorkaholic. Foi obrigado para sustentar as bocas que dele dependiam. Não pensara jamais em envelhecer. E envelhecia. Dia após dia, diante do espelho maldito que lhe denunciava novas rugas, constatava a contragosto que os anos escorreram por entre os dedos. Impossível voltar atrás.

“Então para quê se não tenho absoluto controle sobre minha vida? Não vivo propriamente. Tenho respostas maquinais para o que se faz necessário. Pois que acabe logo essa merda. Nem coragem para dar cabo disso eu tenho!”, pensava. Até que, chegando o aniversário, veio-lhe a ideia de dar corpo ao fardo que carregava no peito em um pedido. Quem sabe ao menos uma vez Deus o ouvisse.

Parte de seu desejo fora consumado. Agora, o Oswaldo que conheciam agonizava no imaginativo alheio devido à estranheza da situação. Mas não queria saber o que os outros achavam. Loucura por loucura, ele já vivia em uma, preso a convenções rasas as quais algemara-se ao longo da existência.


“Talvez seja a morte chave mestra dos meus grilhões”, ruminava o aniversariante com a face corroída pelo sorriso ácido de quem assassina um inimigo. Oswaldo precisava matar Oswaldo para só então permitir-se a um recomeço. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Herança maldita

Por: Viviane Cabrera






De novo, não! Odeio quando ficam pedindo arrego. Meu negócio é chegar e: PÁ PUM! Sem muito diálogo. Isso atrapalha o serviço. Mas eles não sabem dessa dificuldade. Nem ao menos conhecem o que se passa nesse ofício.

Desde pequeno, via pai saindo para as viagens que fazia. Ia ele com ar contrariado, de mala debaixo do braço. Um carro passava em nosso quintal e ele seguia com o tal motorista que nem sabíamos o nome. Eu e mãe ficávamos esperando ele voltar com dinheiro. No entanto, a origem disso era um mistério. Pai nunca comentou nada sobre o trabalho. Nem comigo ou mãe. Era um sujeito calado, sisudo.

E assim foi até o dia de sua morte. Quarta-feira, 11 de dezembro de 1993. O relógio da sala marcava oito da noite e eu acabara de chegar de meu serviço de ajudante de pedreiro. Mãe chorava tanto que o Jequitinhonha inteiro poderia ser inundado. Colocou a mão em meus ombros e disse: “Mataram teu pai”.

Uma revolta tomou-me de assalto e comecei a quebrar as coisas da sala, como se isso fosse aliviar a dor que parecia abrir meu peito. E ao bagunçar tudo, foi que descobri a vida oculta de meu pai.

Guardado dentro de um vaso com flor de plástico havia uma 38 - dessas armas antigas que a polícia usava antes da pistola ponto 40. Estava ainda manchada de sangue. Perguntei pra mãe o que havia de ser aquilo. Mas ela estava tão pasma quanto eu. Examinei mais uma vez o vaso e vi um papel enrolado ali. Tirei com certo cuidado e o abri. A letra era de pai.


“Quando essa carta for para a mão de vocês, já não estarei mais vivo. É aqui que tomo coragem pra dizer que tudo que fiz foi por essa família. Foi pra dar boa vida pra você, Claudineide. Foi pra criar direito nosso menino, o Lucivan. Foi para que ele não tivesse de ir pro mesmo ofício que eu, tendo de matar gente como se matam porcos, a sangue frio. Mas talvez, não tenha mais jeito...


Desculpa contar isso só agora. Sinto vergonha do que fiz. Mas foi tudo por uma boa causa: o bem-estar dos dois.

Se agora vocês estão lendo esta carta, das duas uma: estou morto de velho ou um matador de outro bando veio vingar morte de alguém. Se for a segunda opção, peço ao Lucivan que assuma meu posto e vingue minha morte. Sangue só se paga com sangue, meu filho. Sangue só se paga com sangue...

 Deixo três engradados de dinheiro enterrados embaixo da mangueira que plantei quando o Lucivan nasceu. Foi tudo que ganhei com essa vida que levei. Agora, é de vocês.

Mulher! Cuida do nosso filho e ajuda ele a arrumar uma moça boa. Filho! Cuida da tua mãe e não esqueça do que te pedi. Se fui morto, mata! Procura o Jackson que ele vai te dizer quem procurar e o que fazer.

Amo vocês,

Genivaldo”.


A cabeça começou a dar voltas depois daquelas linhas. Não tinha dúvidas que pai escreveu. Só não podia crer no que estava lá. Meu pai? Matador? E eu ter de vingar morte?

As perguntas faziam minha mente rodopiar. Tanto que passei mal e desmaiei. Quando acordei, mãe estava preocupada. Mal me deixou falar.

- Filho. Você vai fazer o que teu pai pediu. Tem que fazer. Por ele. Por tudo o que ele fez por nós.

Queria ter dito que longe de mim ter de matar alguém, só que as palavras sumiam da boca. E emudecido segui para falar com o Jackson, vizinho nosso. Como que a minha espera, seu Jackson puxou debaixo de uma mesa uma caixa e abriu sem demora. Eram armas que nunca vi na vida e que a partir daquele instante seriam minhas novas ferramentas de trabalho.

Ele me contou rapidamente sobre o assassinato de pai e de quem fez isso. Disse que o trabalho é fácil, que o esquema era nunca olhar nos olhos dos que tinham a morte encomendada. Eu permanecia mudo. Era ainda muita informação para mim.

A primeira morte a gente não esquece. O estampido do tiro, o sangue jorrando, os olhos eclipsados depois do serviço consumado, o gélido toque do defunto e o peso que lhe cai ao corpo morto. Aprendi que acaba sendo mais fácil levar o sujeito pra vala vivo e lá matar. Dá menos trabalho e não irrita a coluna, que nos tempos de ajudante de pedreiro já dava sinais de problemas.

De lá para cá, comecei a trabalhar para seu Jackson e muitos morreram pelas minhas mãos. Ou melhor, pelas minhas balas. Eu, que acreditava não dar para a coisa, passei a gostar da sensação que me invadia. Uma mistura de ódio e tesão. Liberava tudo o que estava lá dentro, contido numa caixinha. O mal me fazia bem. Meu bem era o mal que eu fazia. Pai deve de estar orgulhoso, sabia que ia me adaptar. Tá no sangue dos Costa e Silva a morte. Não pretendo fugir dessa sina. Afinal, quem puxa os seus, não degenera.

sábado, 19 de outubro de 2013

Uma pausa


Por: Viviane Cabrera




No ocaso da existência,
um respiro,
um mergulho na essência.
Um lívido suspiro
antes de retornar ao normal,
antes de sangrar-se na rotina habitual.

Na solidão de pensamentos,
um feixe mal feito de sonhos
enrolados nos cumprimentos
de compromissos tristonhos
da esperança que se carrega,
tão pesada que a alma enverga.

Diante de um abismo,
mil coisas pode-se lançar à escuridão.
A confusão de cores converte-se ao anacronismo
a que resume a dor que exprime alma e coração.
Para isso, nem mesmo serve o exorcismo.
Pois a exatidão do silêncio vem mostrar
que, por vezes, coisas há que não se pode explicar.

Encerro essa tentativa à esmo de se fazer entender
com extremo apreço à solidão.
É ela a única que poderá compreender
o que se passa cá dentro com a lassidão
parasita instaurada em mim.
Só a ela se pode confessar e descansar, enfim.





sábado, 12 de outubro de 2013

Judite



Por: Viviane Cabrera







Judite nasceu no seio de uma família católica apostólica romana. Foi batizada aos três meses de idade, fez primeira comunhão aos sete, crisma aos quinze e casou-se aos dezoito com o ministro da eucaristia da paróquia que frequentava.

Rezava ao despertar, para que Deus protegesse e guiasse seu dia. Entoava cânticos de glória ao anoitecer, agradecendo por mais uma jornada bem sucedida. Para cada coisa em sua vida, havia um ritual que realizava com muito rigor. Por exemplo: jamais saía de casa sem fazer o sinal da cruz e rezar ao seu Anjo da Guarda. Repetia o mesmo sinal quando passava em frente de cemitérios e igrejas, como forma de respeito. 

Salmos xerocados ficavam guardados em sua carteira para na hora de algum aperto, recorrer ao altíssimo, pedindo intercessão para solucionar seus males. Santinhos de Nossa Senhora das Graças, Santa Edwiges, São Francisco e Santo Antônio também lá se encontravam minuciosamente colocados para uma emergência.

Chegava no trabalho e antes de qualquer coisa fazia uma prece. Tudo seu era cuidadosamente depositado na misericórdia do Todo Poderoso. Era feliz assim. Julgava ter mais do que precisava, que o seu Deus era por demais generoso em lhe dar um trabalho em que ganhava um salário mínimo e fazia uma jornada de 72 horas semanais. Estava bem. Tinha seu marido, que era um homem bom e pacato, e um filho esforçado. Samuel, com 15 anos, desdobrava-se para agradar os pais e já dava mostras de que teria um futuro brilhante como cientista ou coisa do gênero.

O semblante de Judite ostentava um sorriso plástico. Era o tempo todo a mesma feição. Fosse na dor ou na alegria, lá estava ela sorrindo por acreditar que o Deus que tudo vê e tudo sabe iria conduzir as situações para o melhor.

Segunda-feira. Judite se espreguiça na cama ao ouvir o despertador avisar a hora: sete da manhã. Levanta-se e lê alguns trechos de seu salmo favorito:

“Pois que se uniu a mim, eu o livrarei e o protegerei, pois conhece o meu nome. Quando me invocar, eu o atenderei. Na tribulação estarei com ele. Hei de livrá-lo e o cobrirei de glória. Será favorecido de longos dias e mostrar-lhe-ei minha salvação”.

Logo depois, um rápido banho e engolir um café feito às pressas, para não se atrasar. Chega ao ponto de ônibus, mas o que costuma pegar acaba de sair lotado. Após 30 minutos, um novo ônibus que lhe serve, mas igualmente lotado. Dessa vez, escolhe ser mais uma ali dentro. O importante é chegar no horário, ainda que sem uma estrutura digna para isso.

Desceu da lata móvel e olhou no relógio. Caso não se 
apressasse, chegaria cinco minutos atrasada. Teria de completar o percurso de dois quarteirões rápido. Como sempre, passou em frente à igreja e, antes de atravessar a rua, fez o sinal da cruz em respeito à “Morada do Senhor Deus”. Saiu da calçada e deu sete passos. Nesse curto intervalo de tempo, um carro em alta velocidade atropelou Judite, jogando seu corpo esguio para o alto. Quando retornou ao asfalto, cheia de sangue e fraturas expostas, seus olhos eclipsados pediam socorro – já que a voz lhe era rara no momento. O carro seguiu em fuga. A bolsa com a carteira recheada de orações e salmos, caiu no lado oposto ao de sua dona.

Uma multidão logo cercou Judite, ali arfando o peito para tentar respirar. Ela pediu para que chamassem o padre da paróquia ali da frente. Queria confessar-se, pedir benção e, se necessário, uma extrema unção. Uma senhora urgentemente trouxe o religioso ao local e o colocou diante daquela cena repulsiva, tal era o estado da mulher estendida no chão.

_ Padre. Sinto que minhas forças estão se esvaindo. Não tenho muito tempo. Só quero falar que minha vida toda fui temente a Deus e fiel à promessa do Altíssimo. Procurei ser alento, sal da terra e luz do mundo, de quem cruzasse meu caminho. Agora, diante da morte, apenas quero saber uma coisa: É assim, então, que tudo acaba? No vazio de um instante estéril e opaco?


O padre não teve tempo para responder. Assim que disse essas palavras, Judite foi invadida por uma dor lancinante e, em seguida emudeceu para sempre. O pároco fechou seus olhos e fez um sinal da cruz em sua testa. Melhor assim. Talvez a verdade fosse a infernal confirmação de um grande equívoco.

domingo, 1 de setembro de 2013

Querer

Por: Viviane Cabrera





Nessa noite vaga,
perigosa feito adaga
que corta o que quer viver,
eis o desejo de te ver.

Assim me atrai e repudia.
Um medo invade e o desejo adia
para mais tarde
a concretização de algo que urde e arde.

Teu corpo é o estopim
dos desatinos que afloram em mim.
Pedra angular do meu pecado.
Homem insano, desaforado.

Liberta de vez essa besta fera
e devolve a calmaria do que antes era!
Vai embora antes que a cortina se feche.
Vá embora antes que essa explosão comece!

Quero a paz de não tê-lo por perto.
Não o gozo pleno em momento incerto.
Pois o que vem de ti perturba tanto
que meu medo é cair em sua rede de encanto.


domingo, 4 de agosto de 2013

Domingo de Manhã


Por: Viviane Cabrera








A semana inteira acordando em um horário insuportavelmente cedo. Sábado idem. No domingo, é óbvio, que a manhã foi feita para dormir. Mas para os Testemunhas de Jeová, não. Reservam os domingos de manhã para bater de porta em porta, na esperança de serem os primeiros a nos desejar bom dia - e pelo horário em que aparecem, são mesmo! - e fazem a pergunta comum ao discurso de todos eles: "Você tem um tempinho para ouvir a palavra de Deus?".

Pois hoje me enchi desse negócio. Isso porque, creio, a divina força está naquilo que encara-se como um bem. Fé não é algo que se ganha na base do discurso, tentando convencer a qualquer custo. Fé você tem e pronto. Pode ser fé em uma pessoa, em uma coisa, em uma entidade de luz. Dane-se em que se tem fé. O importante é tê-la. Dessa forma, a vida torna-se um pouco mais suportável.

Oito horas. Manhã morna e gostosa na cidade de São Paulo. Bom para continuar enrolada no edredon e curtindo esse momento. Só que não. A campainha toca. Pode ter zilhões de moradores na casa. Mas todos se apertam nas cobertas, esperando que uma boa alma os deixe continuar nessa situação. Juro que tentei. Porém, a tal da alma boa teve de ser eu. Infelizmente.

Abro a porta e dou de cara com duas senhoras no portão. Pareciam tão dispostas àquela hora que me dava raiva. Perguntei o que queriam, mas a bíblia embaixo do braço já denunciava a intenção delas. Fizeram a tal da pergunta. "É hoje que me vingo!", pensei.

- Você tem um tempinho para ouvir a palavra de Deus? - disse a mais velha, com cabelo enrolado em um coque impecável, um vestido bege, largo e comprido.

- Acabei de ouvir - respondi - estava falando com Ele agora. Aí tocou a campainha e vim atender.

Elas se olhavam sem entender nada. Decidi continuar.

- É sério! Não acreditam? Ele bate uns papos comigo de vez em quando. Sujeito bom o cara!

- E o que ele te fala? - quis saber a mulher que acompanhava a mais velha. Devia ter lá pelos seus vinte e poucos. Tinha uma aliança que mais parecia um canudo no dedo. Cabelo solto muito comprido e liso, abaixo da cintura. Usava uma saia comprida branca, uma blusa vermelha, o rosto lavado e sem maquiagem. Trazia a ingenuidade expressa no olhar.

- Poxa! Tanta coisa que nem sei por onde começar. - aí comecei a inocular o mesmo veneno que elas costumavam disseminar porta à porta - Vocês tem um tempinho para a palavra de Deus?

- Claro! - disseram as duas simultaneamente.

- Então. Certa vez eu perguntei sobre se a depilação era vaidade pura. Ele me disse que era questão de higiene.

Elas se olhavam e voltavam a atenção para mim.

- Outro dia ele me disse que quem se apresenta como testemunha dele é mentiroso. Porque é impossível alguém ter tanta idade assim e sair impune à vida, sem a morte. Com exceção de Sísifo e do Niemeyer, é claro. Mas esses também foram laçados na curva, apesar dos atalhos.

Quis rir. Mas elas não entenderam a piada. Resolvi prosseguir.

Falei tanta abobrinha que me perdi no tempo. Sei lá quanto fiquei com aquelas duas no portão, falando de uma forma didática e quase que desenhando um Deus que nada tinha com o que elas pintavam. Através da minhas groselhas, a intenção era desmistificar o Deus delas e mostrar que esse ser superior quer mais que as pessoas vivam bem, sem grilos, sem barreiras entre elas. 

- Mas você frequenta igreja? - indagou a velha com certo ar de deboche na voz.

- Não e nem pretendo. O negócio é fazer o bem. Promover o bem. Cuidar para que ele prevaleça. O resto é balela e serve apenas para disseminar ódio e preconceito.

- Então você não serve a Deus. Quem não frequenta a igreja, serve ao Diabo. - acusou a jovem, enérgica.

Respirei fundo. 

- Verdade. Sirvo ao demônio. Por isso mesmo que vou chamar minha pitbull para dar a penitência certa a quem não tem o que fazer e acorda os outros cedo no domingo. 

Gritei pelo nome da cadela e a dupla santa saiu em disparada, ladeira abaixo. Ri da cena, apesar daquilo ter sido politicamente incorreto. Mas, poxa! E o meu sono interrompido? Como fica?

Nisso tudo, aprendi que quando o bem não dá jeito nas coisas, a saída é apelar ao Diabo, mesmo.  Ninguém mandou mexer com quem estava quieta - e dormindo! E disso, Deus é testemunha.



A descoberta da Malu

E quando sua filha de sete anos faz poema, vale uma postagem.

Da Malu Carvalho.







"Poesia 





que pinga todo dia.




Poesia que ando




cantando. 





Poesia quem canta,





não é pilantra.





Poesia quem canta,




a alma dança".

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Da flor e do resto


Por: Viviane Cabrera





Laranjeira em flor,
laranjeira em flor.
Seu perfume tem sabor
da sublime suavidade
que aos olhos cansados é um pouco de felicidade.
Tem jeito de tarde sem fim.
Um vôo leve de querubim.
De riso frouxo de criança.
De passo novo de dança.
E o sol majestoso que no céu se esparrama
lança raios sobre a verde rama,
fazendo destaque à natureza.
Fazendo ressaltar aos olhos a simples e real [beleza.
Laranjeira em flor,
Laranjeira em flor.
Nesse encantamento esqueço a dor
de ter aos pés um grilhão
que aperta também o coração.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Era uma vez no trem


Por: Viviane Cabrera







Dia desses no trem, entrou uma moça vendendo chiclete, amendoim, bala. Essas coisas. O discurso parecia ser comum aos vendedores ambulantes que batem perna de vagão em vagão dos trens da CPTM de São Paulo. 



- Boa tarde, pessoal! Tô aqui, humildemente TRA-BA-LHAN-DO. Tentando fazer um dinheirinho pra SO-BRE-VI-VER. Trago aqui a novidade da "marca tal" que lá fora está de R$ 2,00 a R$ 3,00. Mas na mi-nha mão você só paga R$ 1,00! - falava em tom firme e voz alta espaçando as sílabas de certas palavras uma jovem morena, cabelo crespo mal alisado, olhos grandes e negros, rosto fino. Devia ter lá pelos seus 18 anos. Não mais do que isso.

Cocei a cabeça. Essa história de ouvir sempre as mesmas coisas cansa. Foi quando ela prosseguiu, tirando o produto que vendia e colocando um na mão de cada pessoa do vagão e continuou a falar.

- Olha só! Ajuda aí, pessoal! Minha sogra morreu e preciso de dinheiro para fazer um churrasco pra CO-ME-MO-RAR! Tá todo mundo CON-VI-DA-DO! 

A gargalhada foi geral. Ao passo de alguns segundos, as pessoas colocavam as mãos nos bolsos e fuçavam nas bolsas para caçar moedas. Muitos compraram. E todos felicitando a vendedora pelo "acontecimento". Eu fui uma delas. 

A moça já deve ter uma certa experiência e observou que os usuários desse tipo de transporte carregam no semblante o cansaço. Matou dois coelhos numa cajadada só: transformou o cansaço, sofrimento em risadas e ali atingiu um bom faturamento. 

O trem chegou na estação. A porta se abriu e lá foi ela com sua mochila nas costas, correndo para não ser apanhada pelos guardas. Só esqueci de uma coisa: perguntar onde e quando seria o churrasco. Pena.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Reticências



Por: Viviane Cabrera





Dia desses, recebeu um sms no celular que a deixou um tanto balançada. Era um ex-amor. Desses de sentimentos vagabundos que se quer esquecer. Num conjunto de frases soltas, mas que se interligavam pela mesma linha de raciocínio, a mensagem dizia: "Saudade de você. Preciso te ver. Pensando muito em nós".


Não entendeu. Isso porque o tal "nós" não existia há algum tempo. Pusera um ponto final, pois via naquilo tudo uma grande armadilha, cuja qual sabia que sairia machucada. E, como forma de preservar-se de mais uma decepção, decretou o fim do que chamavam de relacionamento e afastou-se. 

Contudo, sentiu um certo frio na espinha. Talvez ainda restasse algum sentimento. E num ato de pura curiosidade, respondeu ao rapaz. Sem colocar palavras que de fato se ligassem ao que ele lhe mandou, perguntou como estava. Não demorou muito para sua caixa de entrada receber pelo menos umas cinco mensagens do sujeito. Empolgado, falava que estava bem. Seu único problema era não tê-la ao seu lado. Reclamava de saudades e queria nova chance. Inclusive forçando um encontro para conversarem olho no olho.

Por um momento, ela parou. Indagações variadas surgiram em sua mente e inquietaram seu coração. "Por que não tentar mais uma vez?", pensou. No entanto, a mesma certeza de sempre logo a invadiu: era preciso preservar-se de novas decepções. Fazia coleções delas e já estava cansada de ter de carregar seu peso. 

Ficou algumas horas olhando as mensagens, uma por uma. Precisava ter convicção para responder. Até que decidiu acabar com aquilo de vez. Respirou fundo. E numa sequência de dígitos é que saiu um: "Vou pensar".

 Pediu para que ele não ligasse ou a procurasse novamente. Repetiu que iria pensar. Taxativa, ela excluía assim o ponto final, a vírgula, interrogação e exclamação. Colocara reticências. Preferiu deixar no ar um talvez por entre as frestas da cortina de um futuro possível. Foi então que a esperança dele fez ponte no abismo que os separava. Ela não achou bom nem ruim. Quem sabe? Poderia ser um caminho a seguir mais tarde. 

sábado, 8 de junho de 2013

Cegueira Social


Por: Viviane Cabrera








Os olhos azuis estavam estrategicamente escondidos atrás de um óculos Ray-Ban modelo aviador. O sol irritava suas vistas. Pele alva, mas que com as marcas do tempo já denunciavam a idade: devia ter lá pelos seus sessenta anos. Era uma senhora loira, imponente e de modos refinados.

Estava ela em um bistrô, o qual entrei para beber algo para me refrescar. Mas não quis ficar no balcão. O calor cansa a gente. Aí decidi que o melhor seria ir para uma mesa e descansar. Havia eu e mais dois clientes além da tal mulher. Daí a facilidade que se tinha em ouvir claramente o que cada um dizia. Um rapaz calvo e baixo pedia uma água com gás, gelo e limão enquanto esperava alguém. O outro, um sujeito sisudo e de poucos amigos, bebia um café. Aquela senhora balançava um copo com a mão e tomava água em goles tranquilos. Era quatro da tarde.

O garçom percebeu o tédio nela e resolveu puxar assunto. Comentou do tempo louco de São Paulo. Dos transportes públicos lotados. A senhora empolgou-se e resolveu conversar.

Começou por contar ao rapaz que trabalhou como metroviária, mas que agora estava aposentada. Conhecia de perto as dificuldades desse tipo de transporte. E é aí que iniciou os comentários que chamaram minha atenção.

_ A culpa da superlotação de São Paulo é a procriação indiscriminada desses nordestinos. Precisamos, nós do sul e sudeste, mandar todos eles de volta para a terrinha!

O garçom franziu o cenho com o que ouviu, mas ficou quieto. Notava-se pelo biotipo que ele era nordestino. Talvez os óculos Ray-Ban tivessem impedido a madame de perceber isso - o que a fez continuar com entusiasmo. Ressaltava as palavras arrastando os "erres", com o típico sotaque paulistano. 

_ Veja você. Se o problema no Brasil fosse somente os transportes estaria bom. Mas é tudo, menino! Tudo! Só se ouve dizer que fulano roubou dinheiro público. Antes desse "Nove Dedos" e a turminha dele entrar lá em Brasília, não tinha nada disso. Você ouvia falar de corrupção? Eu não ouvia! Então é porque não tinha. E isso de um presidente semianalfabeto! Deu no que deu. Fica nessa de assistencialismo, distribuindo o dinheiro da gente que trabalha e paga impostos, para essas pessoas que não querem nada com nada e só fazem filho. Vai lá! Vai ver a favela! Tudo vagabundo! Ninguém quer trabalhar porque já recebe "bolsa isso", "bolsa aquilo"... Coisa desses comunistas que estão no poder! Estão acabando com o país. 

O estômago embrulhou. Que tipo de realidade paralela essa pessoa vivia? Como pode uma distorção tão grande da realidade? Eu continuava apostando que a culpa era do Ray-Ban. Escurecia suas vistas a ponto de que ela não enxergasse direito o que se passava. Pedi ao outro garçom - para não atrapalhar a conversa do coitado que emprestou o ouvido à mulher - uma água tônica para desfazer o mal-estar que a sujeita me causou.

_ Acho que favelado não tinha que receber auxílio gás! Porque se estão na favela, foi uma opção deles. Eles optaram por deixar para trás a decência para se viver. Não quiseram viver como bichos na favela! Pois que fiquem sem conforto. Nada de o Governo dar auxílio em dinheiro não! Vai trabalhar, vagabundo! Por isso é que eu prefiro Europa. É outra coisa. O povo é civilizado e não tem nada disso de favela ou mendigo. Logo eu viajo para lá.

Olhei o garçom. Estava incomodado com aquele papo da dona do Ray-Ban. Procurava uma forma de se esquivar. Quis apenas ser gentil e teve seu ouvido transformado em penico. Cansado do discurso elitista e reacionário da leitora da ex-colunista da Folha, Danuza Leão, o moço limitou-se a pedir licença e dizer que precisava voltar ao trabalho.

Tive de me conter para não cair na gargalhada. Quando a loira disse que moradores de favela optaram por viver ali, abrindo mão de uma vida confortável, assinou o atestado de ignorância. Digo ignorância, pois vê-se bem que essa senhora desconhece completamente o país onde mora. E desconhece porque lhe é conveniente ficar assim, sem saber. Do contrário, teria de fazer algo para reverter o que de ruim ocorre. Mas essa não é sua intenção. O que importa é o capítulo da novela, as viagens. O próprio umbigo como prioridade máxima.

Penso que o mundo está repleto de senhoras e senhores de "óculos Ray-Ban". Não enxergam um palmo diante de si. No entanto, sentem-se no direito de "opinar com a opinião dos outros", reproduzindo o que ouviram dizer.

Pensei em me levantar e ir conversar com a tal mulher. Contudo, não existe diálogo com uma pessoa que abraça apaixonadamente a ideologia de que pobre tem mais é que morrer de fome. É o tipo de gente que sofre de complexo do pombo enxadrista. Você chama para um debate. A criatura, acuada por não possuir argumentos contundentes para rebater os do outro lado, parte para a ignorância e ainda se porta com ares de superioridade - como se estivesse certíssima.

Fato é que resolvi deixar essa passar. Pelo menos ali, naquele momento. Alguns dias depois, ouvi o mesmo discurso, só que de alguém diferente. Cheguei a conclusão de que a sociedade está ficando cega e insensível. Só pode.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Somos Todos Estranhos



Por: Viviane Cabrera







Estranha. Era como ele me classificava. Não chegara a verbalizar qualquer coisa a respeito. Apenas analisava friamente. A mim e ao meu jeito desafinado de ser. Digo desafinado, porque às vezes algumas atitudes não harmonizam com o que realmente gostaria de fazer. Culpa da timidez.


Mas o julgamento que fazia dava de ombros para isso. Simplesmente dissecava cada célula viva e o que ia além. Para aquele sujeito, eu era estranha e ponto final. Dava vontade de dizer que minha vida não se resumia aos poucos minutos em que, desajeitada, enroscava-me no emaranhado das situações. Contudo, veio uma voz no ouvido que disse: "Hei! Deixa ele pensar o que quiser. Você sabe quem é. Isso, ninguém te tira". Fiquei um bom tempo refletindo sobre. Era o Amor-Próprio ou a Preguiça - de ter de argumentar -  que tentara comunicação? Difícil saber.

Todavia, querendo ou não, na cabeça dele era eu um tipo indefinível de pessoa que age coreograficamente desengonçada. Irritava ter aquela certeza nas mãos. Carregar a ideia era verdadeiramente um peso. Quem fala que não liga para essas coisas mente. Imagina só! Alguém que não conhece absolutamente nada do que foi vivido, sofrido, batalhado, te julgar! 

Um exemplo. Alguns silêncios são valiosos, pois com eles as poucas palavras ditas em seus intervalos ficam penduradas como pingentes. Tachar a ausência de comunicação de bizarrice é um engano. Não há injustiça maior do que essa.

Afora as considerações que a mente do indivíduo fazia de lá, lembro  cá do verso da famosa música  que  Caetano  cantou: "Narciso acha feio o que não é espelho". Somos todos estranhos uns aos outros. Ainda bem. Pois que seria um tédio tantas pessoas refletindo apenas virtudes. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Ecos de Uma Reflexão



Por: Viviane Cabrera





Em uma das visitas à Favela da Linha, no bairro da Vila Leopoldina, aqui em São Paulo, fui conversar com dona Maria Nascimento de Jesus, de 58 anos. Ouvi uma frase que soou como sentença, como um tapa na cara - daqueles que você nem reage, tal a surpresa com que vêm.

Apesar da obviedade do que disse, as reflexões foram tão profundas que me agarrei a elas naquele momento, desviando a atenção da realidade. Por instantes, vi diversos pensamentos navegando em um oceano de águas revoltas. Um turbilhão de sensações passou a me atormentar sem mais nem menos. 

“A vida é feita pra se agoniar”, afirmou dona Maria, estabelecendo essa certeza em uma frase solta dentro de nosso bate-papo de comadres recém-conhecidas. Mal sabia o impacto que teriam suas palavras.

Então, minha cabeça começou a girar em meio a alguns questionamentos. Seria mesmo o sofrimento um mal necessário? Haveria jeito de escapar da loucura desconexa a qual estamos fadados a enfrentar cotidianamente?

Enquanto aquela senhora continuava a contar um pouco mais de sua trajetória, os ditos me enlaçavam apertando fortemente. Comecei a ficar incomodada. Estava perdida em pensamentos, quase sufocada de ansiedade para descobrir a chave do enigma que pousava como uma lâmina sobre minha cabeça. Tive de interromper a conversa. Em uma breve despedida, marcamos nova data para visitá-la a fim de dar seguimento à nossa prosa.

O primeiro lugar silencioso em que pensei em me enfiar foi em uma igreja. “Aqui poderei refletir um pouco, em completa paz e silêncio. Aquele pessoal consegue encontrar conforto nesse tipo de lugar. Por que raios eu não haveria de conseguir?!”, raciocinei. Contudo, parece que ânsias e dúvidas ecoavam, reverberavam naquele local sacrossanto. Não havia ninguém senão eu. 

 Na rua novamente, olhei para o céu e vi que estava para cair a chuva costumeira de final de tarde. Estava sem guarda-chuva, como sempre. Caminhei com as mãos nos bolsos e a cabeça pesada, carregando a confusão toda. 

Com seu jeito simples, dona Maria me mostrou o aspecto cru da existência, que não havia reconhecido até então. Em uma sucessão de repetições, vemo-nos envoltos nos mais diversos problemas. E os resolvemos. No dia seguinte há outro para azucrinar a paciência. 

“A vida é feita pra se agoniar”, ouço ainda aquela mulher sofrida dizer. Não há o que fazer a não ser concordar. Sábio como ela, o poeta, dramaturgo e romancista siciliano Luigi Pirandello escreveu: “Somos todos prisioneiro dos fatos”. E sou obrigada a acrescentar que contra eles, meu bem, ninguém pode. Nem mesmo os argumentos.

Agradeço à dona Maria...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

À Noite



Por: Viviane Cabrera




O sol se vai
e a noite cai.
Cobre o dia de noite e sai
em busca do que mais atrai.

Vejo o céu e a lua que se esconde
os olhos se perdem sem que algo lhes assombre.
No ar, a esperança de que coisas sonde.
E o coração indaga: ONDE? ONDE?

No silêncio estrelado do breu
a expectativa de revitalizar o que adoeceu,
vai ao encontro de algo seu.
Fusão de duas vidas. Desejo meu.

E a lua esplendorosa e cheia
flutua no céu e nele vagueia.
Revela beleza que incendeia
uma alma que de desilusão às vezes falseia.


Tomando um céu inteiro
a lua plena vem com seu jeito faceiro
dar sua permissão para que o beijoqueiro
toque o mel de meus lábios desejosos de um jeito matreiro.

E quando o sol ao seu posto ameça retornar,
a noite se despede com a promessa de que há de voltar.
Há de trazer de à tona o sonho que guardado vai ficar
para no momento certo maravilhas fazer eclodir, revelar.

Vão-se embora as estrelas brilhantes.
Agora se apagam. Mas logo encantam como dantes
com suas luzes fortes e elegantes
que suscitam sensações mais que relevantes.

Que o dia lave a escuridão
e leve embora o que de resquício ainda oprime o coração.
Que reserve à noite sua volúpia e amplidão,
tornando nulo qualquer vestígio de sofreguidão.