Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

sábado, 22 de dezembro de 2012

O Poeta É Quem Sabe

Por: Viviane Cabrera 




Não quero mais saber de psicólogos, cartomantes, astrólogos, padres, videntes, pastores ou quem quer que seja para discutir questões existenciais. Depois do dia em que desabafei com um amigo poeta, percebi que só um profundo conhecedor da alma humana e das intempéries da vida pode, de fato, jogar luz no ponto certo.

Trata-se de uma pessoa simples que gosta de palavras soltas, libertas para que tenham espaço para significar o que quiserem sem amarras às conveniências, aos relógios tique-taqueando escravidão cotidiana. Iluminado por natureza, possui ele uma sensibilidade acima do normal, um riso de criança guardado no peito e intenso amor por amar. São olhos de lince que se lançam sobre determinado aspecto, pessoa ou objeto, dissecando-os. 

Com uma técnica infalível consegue retirar farpas antigas de feridas abertas e limpá-las com suas lágrimas de compaixão. Em seguida, envolve as chagas com o bálsamo de seus sábios conselhos. 

Sacerdote de uma gaia ciência, sabe fazer com que seus dizeres atinjam a nós - meros mortais - bem como a lua atingiu Drummond em seu Poema de Sete Faces. É que nos coloca comovidos como o diabo, sentindo-se à flor da pele.

Em contrapartida, essa criatura mista de céus e infernos apazigua motins que temos internamente com seus dogmas, axiomas  literários e construções de raciocínios cimentados pelo amor à humanidade que ultrapassa até mesmo seu próprio peito e expande-se no universo. Mais do que simples palavras, o poeta nos toca é com a alma e com a volúpia que o impele a crer na vida.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Banhos de Chuva

Por: Viviane Cabrera






Em tempos de banzo, banhos de chuva são mais do que necessários. São eles que lavam e levam embora toda aquela sujeira acumulada por tanta coisa que vamos encruando por dentro. A abundância de água que jorra abençoa cada centímetro de pele, cada alma que insiste em lutar, cada coração que pulsa de teimoso.

Receber o desaguar das nuvens carregadas é libertador. Isso porque nessas horas você esquece dos inúmeros problemas que te cercam e somente a chuva é que povoa o centro de suas preocupações. Enquanto ela durar, não haverá em sua mente outra coisa senão a bendita. Tudo fica menor diante da amostra de tempestade.

O que mais intriga é a mudança das sensações e sentimentos durante esse processo. Antes, o medo de se molhar. Depois de uma aguaceira daquelas, tanto faz. Você acaba até gostando de ficar embaixo dessa ducha natural. O corpo acostuma e a alma pede mais liberdade de poder viver hidratando o árido que há em nós.

Tomar um banho de chuva - dos bem tomados, mesmo - enchem a pessoa de coragem para enfrentar a barreira que for. Titã que se meta a besta nessas horas! Vai é se dar mal. Talvez essa força venha à tona porque, vinda dos céus, a chuva é uma benção e como tal desperta na gente somente aquilo que nos é tão característico.   

Sei lá. Temos mania de fazer suposições e crer piamente nelas - coisa que atinge em cheio os nervos e estômago de quem é ansioso demais. Penso que o simples às vezes basta para ser feliz, ainda que por instantes. No fim das contas, deixar fluir pingos de acaso em nós não faz mal a ninguém. Então, que chova!




domingo, 9 de dezembro de 2012

A Hora Certa Para Revelar

Por: Viviane Cabrera






Cuido do jardim, mas os pensamentos não deixam de circular na cabeça. Pesa tanto que me fazem pender e andar até curvada. De uns tempos para cá, cheguei inclusive a esvaziar-me. Andava muito cheia de passado. Aí comecei a preencher com novas esperanças. Só que também não deu nada certo. Elas pesam toneladas e arrastavam para os cantos mais obscuros. O perigo disto está em não conseguir sair mais do lugar por causa da enorme carga.

Passeava entre as flores, regando algumas, afofando a terra de outras. Até que em certo ponto, como que criando raízes, detive-me diante de uma em especial. Diferente das demais, era pequena, franzina e sem muita cor. Mas estava ali. E devia haver uma razão plausível para isso.

Enroscada timidamente em um metal que beira à parede, sobe e brinca de enrolar-se nos varais de roupas com seus galhos, folhas lânguidas de um verde musgo brilhante e suas flores - pequeninas bolsinhas brancas que guardam um mistério não revelado - fechadas para esconderem-se do sol. É o jasmim-da-noite. 

Essa mesma flor que se esconde enquanto tantas outras desabrocham formando cascatas de cores que brindam quem vê, liberta sua beleza e inconfundível perfume quando os desatentos não podem dar-se conta disso. Apenas quem realmente interessa e quem gosta é que a enxerga, a sente e a percebe como deve. E talvez seja assim que deva mesmo ser.

Enquanto olho maravilhada o espetáculo que a natureza fornece, paira uma dúvida. Não seria eu um jasmim-da-noite também? 

Hipóteses. Concretas ou abstratas, fazem parte das possibilidades que constam em minha lista. A luz nunca foi meu forte e mostrar as cores para qualquer um perde a graça. O perfume que carrego satisfaz o gosto de muito poucos e não está para ser desperdiçado. Nem paciência para isso tenho. 

De dia, exposta aos olhares alheios, sinto-me fechada, mostrando só o detalhe esverdeado do que está aparente e superficial. Contudo, é ao longe que liberto meu ser para que possa em plenitude expandir em vivências e sentidos mil. 

Quem sabe numa dessas madrugadas, iluminada sob a luz da lua, eu possa ter da reflexão o suficiente para extrair sentença que me caiba. Não preciso de platéia. Afinal, o melhor aplauso é o que damos a nós mesmos em gratidão por ter feito algo de que gostamos.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

SORRIA


Por: Viviane Cabrera





Viver não é fácil. Impossível também não é. Há que se ter um bom jogo de cintura, paciência de Jó e muito, mas muito sangue frio. O tempo vai passando e a gente começa a ver tudo por outras perspectivas, outros prismas. Só tem uma coisa que não muda nem envelhece: o sonho.

Sonhar é o jeito que o corpo encontrou para tornar substancial o fresco e ávido delírio que guia nossas vontades. Suprimidas por alguma realidade cruel ou não, trazemos encrustadas no peito esperanças de dias melhores. Um sonho é a força motriz do ser humano. É o que move o mundo. Sonhos são belos e possuem aura confortável.

Dizem que a melhor forma de viver é fazendo aquilo que nos dá prazer. No entanto, estamos numa sociedade que continuamente tolhe nossos instintos, vontades e até mesmo os caprichos. Aí então, seguimos recalcados sob a égide de uma frustração. É por essas e outras que as coisas acontecem todas por debaixo dos panos - ou dos lençóis.

Todavia, quando você pensa em jogar tudo pro alto, vem um sorriso daqueles que te ofusca os olhos e faz baixar as armas. Essa é a vida... Entre altos e baixos, vamos aprendendo a nos equilibrar com as poucas e raras armas que temos para enfrentar os obstáculos.

Por isso, menina e menino, mulher e homem, sorria! Não há nada mais potente do que um sorriso cheio de esperança e fé. Sorria para quem te magoou, para quem te feriu. Mesmo que você queira soltar um belo e sonoro palavrão para desafogar. A vida se encarrega de dar o troco. Cabe a você apenas esquecer para poder viver em paz.

domingo, 2 de dezembro de 2012

A Pipa Amarela

Por: Viviane Cabrera






Hoje uma pipa amarela invadiu meu jardim. Perdeu-se ela ali em meio aos arbustos e enrosquei-me em sua rabiola, tentando galgar o céu. É que em pensamentos, fui subindo mais alto do que deveria e quando vi, estava lá entre as nuvens, brincando de voar.

Essa pipa trouxe fagulhas de meninice que cambalhotavam em ideias fixas. Eram elas detentoras das vontades mais pueris possíveis. Sei que repleta de tanta benesse, deixe-me descansar no gramado com os olhos cerrados e um sorriso melífluo nos lábios. Veio então o sol aquecer o corpo branco e sem viço que se perdia em um roupão grosso e desengonçado. 

Logo, a pele bronzeada dava lugar ao inexpressivo que povoava os poros. Mas ainda não era o bastante. Acontece que apesar de tantas cores registradas ali na tela mental, o amarelo daquela peça de brincadeira infantil impregnou na alma. Queria de alguma forma pintar o mundo naquele tom peculiar que me instigava a continuar vivendo. Queria tingir o que pudesse daquela cor que me incitava a odiar o lodo, a escuridão, a tristeza, a melancolia.

Empinei a pipa com os mais puros sentimentos que havia dentro de mim. Tudo aquilo que era luz e caminho de bem em minha alma e coração tornou-se força motriz para fazer a pipa subir tão alto quanto jamais poderia ter ido qualquer foguete. Chegou pertinho do Astro Rei e não podendo de tanta felicidade à altas temperaturas de entusiasmo, desfez-se em um instante mágico.

Acho que sou um pouco Ícaro, um pouco dessa pipa que quer tocar o sol. Tenho tantos sonhos cá dentro, que às vezes julgo ter latente ainda a ingenuidade dos primeiros anos de vida. Contudo, a vida teima em colocar asas de cera em minhas costas para lembrar-me de que não há perfeição nos caminhos da existência. Pisamos espinhos e somos obrigados a acostumar com a dor. Eis que não só não me acostumo a essa tragédia anunciada, mas também me recuso a aceitar que a queda será dolorosa. Pode ser que eu aprenda algo com ela.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

De Escrever

Por: Viviane Cabrera







Ultimamente estou voltada aos fatídicos e derradeiros desenganos do acaso. Cansei dessa veia romântica ao estilo dos Irmãos Grimm que aprisiona e engessa toda a ideia de naturalidade. O fluxo das coisas precisam e merecem ser respeitadas, pois a vida é bem isso: um desaguar de situações desconexas que se acorrentam umas às outras até tecerem uma malha férrea de acontecimentos. Importa é o gosto das palavras soltas, libertas para que tenham espaço para significar o que quiserem. Sou moleca que tem mania de palavrear tudo que sente, observa e percebe. Escrever, para mim, é uma brincadeira séria. 

Pouco importa se o final é feliz ou triste. O enredo que se conta é que precisa pegar o leitor pelo pé, pelas entranhas, pela alma, pelo coração. O relevante é que o rumo das coisas caminhem para o melhor dos personagens. Seu encerramento acaba sendo mero detalhe. É um mundo a parte que adentramos para explorar. Sem ambição alguma. Somente pelo simples prazer das descobertas e novas sensações que proporciona. É onde o jeito que me codifico em letras é minha identidade, meu rosto. É onde moldo o barro para que se transforme em cerâmica. 


E o bom da escrita é justamente isso. Somos submetidos voluntariamente a ser reféns de nossas palavras, personagem de nossos personagens. Devemos deixar que o processo todo abuse de boa vontade que temos. É forma de se libertar. Deles e do que mais estiver preso por aí. Assim é que se dá minha redenção. Seja para falar do bem ou do mal. Essas drogas de demônios fazem é estrago dentro da gente, arranhando ao querer sair do jeito que for. Aí é que dar vazão a eles passa a ser um bálsamo. Pois a cada palavra, acalmam-se e me deixam em paz. Coloquei os tais demônios para pensarem por mim e fico apenas com o serviço de psicografar.


Que me desculpem os desavisados. Mas quando a inspiração me pega, não faço força alguma para escapar. Mergulho sem perder o ar, de olhos bem abertos e braços a espera do que possa vir a ser.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Uma Brisa, Uma Frase e Vários Sonhos

Por: Viviane Cabrera
 
 
 

Certa vez me disseram que só pode oferecer água quem tem um poço dela repleto. Por não achar água onde julguei que encontraria é que vou em busca de novos caminhos. Os olhos necessitam de horizontes diferentes, pois acostumaram-se demais ao cenário de então. 


Não se trata de apontar o dedo para o outro, mas de aceitar e respeitar meu jeito, não violentando-o. Cansei de muita coisa, inclusive de me excluir da lista de prioridades. Um dia a gente acorda, baby. E ainda bem que não é tarde demais.

Todos os dias, encaro de frente esse enigma da Esfinge da Vida. "Decifra-me ou devoro-te!", brada imperativamente ela. No entanto, são tantas as armadilhas e seus embustes que já não sei mais qual é a vantagem do que. Pois que me devore. Continuo como Sócrates, tendo a consciência de minha total ignorância.

Aí é que decidi calar. Não sei por quanto tempo essa necessidade intrínseca pelo silêncio há de durar. Até mesmo porque não sei ouvir quieta à descabidas palavras sem que me manifeste. Perdi a conta das vezes em que olhei no espelho e vi transfigurado meu olhar. Perturbou-me de tal forma saber que já não eram meus olhos, mas a maneira de olhar que se refazia numa espécie de metamorfose que resolvi calar para acompanhar com atenção os tic-tacs de um tempo que voava livre de qualquer obrigação.

Apenas calculo que será suficientemente preciso para retomar o fôlego e emergir das águas gélidas as quais tenho deixado meu corpo afundar. Como diria Fernando Pessoa, "Falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase. E a vida dói quando mais se goza e quanto mais se inventa". Quero compreender essa falta, essa dor. Quem sabe assim ela passa.

Vivemos numa existência solta, em um universo absorto no silêncio. Ainda que coberta por ele, procuro na escrita a válvula de escape. Escrever é um constante exercício para livrar-se de antigos demônios. Os meus precisam sair devagar para não congestionarem e atrapalhar todo o processo.

Já foi dito - e muito bem dito, por sinal - que os defeitos também são necessários para compor o aquilo que se chama "eu". Eis em mim complexidade de antíteses que se completam na incoerência que há em ser humana, demasiada humana. Sou ao cubo. Não vou na maré de opiniões alheias. O que me satisfaz é o que enternece alma e coração. Apego-me apenas a esse conceito e sigo em frente. Sempre. Cabeça erguida, ombros alinhados e os pensamentos correndo na mente.
 
Solidão é mesmo um momento ímpar. É quando podemos olhar para dentro e nos perder em infinitos detalhes e descobertas. Nessa perda que nos encontramos cada vez mais. Ando aprendendo a me ilhar, cercar-me da água do acaso e esperar o resgate da vida. Já não tenho forças para ir tão alto nem paciência para descer tanto. Sonhos eu carrego no coração e não me furto a entregar-me a eles. É a única chance que eles têm de serem concretizados e eu de ser feliz.