Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Aos Quatro Ventos

Por: Viviane Cabrera






Vento vem levar

o que estático quer ficar.

Aquilo que flutua

entre minha minha alma nua

e o pensamento seu

vai-se indo,

subindo

contrário ao desejo ateu.


E nesse vôo ascendente

rasgando o céu e o coração tão crente,

eis que abro os braços e falo.

Digo sentenças e depois me calo.

Coisa de quem sofre sem caminho,

de quem guarda em si espinho

que não se pode retirar,

pois que com ele é que se aprendeu a amar.


Céu límpido e vasto,

cheio do anseio rebelde e casto

de um dia vir a ser

o que tempo algum deixou acontecer.

E assim sonho cá um pouquinho.

Nesse mundo cão, sou passarinho

a voar sem pensar no risco.

Voar.

Mas sempre para o ninho

voltar.

domingo, 13 de maio de 2012

Mãe

Por: Viviane Cabrera




Mãe é abraço,
é laço
que envolve e enternece.
Alguém que ao coração apetece.
É a voz da experiência.
Mãe é excelência.

Mãe é mão gentil que afaga.
Voz macia na fria madrugada.
É aconchego quando somos dor.
É a mais pura manifestação de amor.

Ela é base, alicerce, telhado,
nesse mundo tão vazio e desestruturado.
É fonte de vida e alegria,
é esperança de que algum dia
acertemos o tom nessa sinfonia
a que somos obrigados a orquestrar
com a coragem de quem há de vitórias conquistar.




quinta-feira, 10 de maio de 2012

Vontade de Azul

Por: Viviane Cabrera


Dias se passaram como um sopro. Mas ela ainda estava ali no quarto. Ficava a olhar as nuances de azul no céu. Só que aquela aura rosada sufocava o que de mais íntimo possuía. "Eu olho o mundo com o olhar de mundos em mim", repetia em voz baixa. Preferia paredes brancas. Assim, imprimiria seus humores plurifacetados como quadros a retratar momentos de seu viver.

No entanto, o azul celeste despertava-lhe algo que ia além de uma mera explicação de palavras. Por entre grades, tentava alcançar não só a cor, mas também o mais alto que pudesse. Contudo, quanto mais esticava-se, mais distante estava de seus desejos, aspirações e anseios.

Enquanto isso, nuvens passeavam de um lado a outro afrontando sua expectativa de um dia ter a liberdade de ir com o vento até onde o destino lhe for permitido. Não se furtava a enfrentar obstáculos.

 Afinal, é deles que se extrai o sumo de aprendizados. Apenas queria abraçar a vida, ter coragem e dar a cara a tapa. O medo era nulo quando me lanço em direção ao desconhecido em um mergulho sem fim. Somente queria a liberdade azulada que se apresentava tão atraente diante dos olhos.

Faltava-lhe muito para compreender o imcompreensível. As pessoas são pequenas peças de um enorme quebra-cabeça maluco e desconexo. Então, para que dar murro em ponta de faca? Sábios os chineses que provavam por A + B que a mudança coberta de sensatez é aquela que começa por nós mesmos. Se a caminhada será longa, não importa. Pois que seja proveitosa enquanto dure.

Todavia, a dela estava anos luz de se concretizar. Separada de sua jornada por grades frias de ferro sonhava, envolta na intoxicante fumaça rosácea do quarto, aguardando por algo que viabilizasse sua fuga para um céu de azuis profusos e vivazes.













domingo, 22 de abril de 2012

Nó de Amar

Por Viviane Cabrera





Numa dessas conversas noturnas, escuta a sentença que faz eco em sua alma. "Você se esconde. Não entendo isso!", disse ele. Quase que uma não aceitação de qualquer outra veracidade que não fosse a do homem, a leva a pensar.

Ocultar um pouco de si faz dela uma contradição. Não que assim o quisesse. Mas como todo ser humano, acontece.

Entre sorrisos rebentos e uma melancolia camuflada em seus olhos castanho-amendoados, abre-se ao mundo estando reclusa nela própria. Na impossibilidade é que tudo ocorre. Aí então, numa tímida expansão de ser, distribui gotículas de sua essência em palavras, atos e emoções. Doa-se homeopaticamente, que é para não sofrer decepções. Porém, ainda assim é muito mais pelos outros que por ela mesma.

Contudo, não era o suficiente. Para ele que entrou em contato com o verdadeiro eu que ela permitiu que conhecesse, devia sua menina escancarar incondicionalmente sua maneira humana e deixar de se esconder por medos e receios vindos de um passado que já não existe.

Não existe, todavia assombra. As lembranças perduram na memória e de lá não descolam nem por decreto. Acabam por trazer à alma um jeito soturno. Ela até que tenta desprender-se desses pesos para viver com liberdade e leveza. Mas a lembrança, essa maldita inquilina, ronda.

Sua menina o olha como se dissesse: "Não me peça algo que está além de meus limites". Apesar disso, o coração do homem quer a entrega sem reservas. Poderia o tempo, senhor absoluto de tantas coisas, abrir caminhos de entendimento? Poderia ele compreender todos os mistérios daquela que o fez mover mundos e esperar por sua entrega total?

A certeza reinante é que para o homem, ela é uma extensão dele em muitos âmbitos. Para a mulher, ele se configura um caleidoscópio de coisas. É um sábio que observa suas fases lunares e decifra sua função poética, maestro que a acompanha na melodia do destino, santo que a batiza nas águas do acaso com suas máximas e o homem que a envolve por um olhar, eternizando o laço dos dois.

No mais, estão um pelo outro. Escondendo-se ou não, são um nó apertado de amor.




domingo, 1 de abril de 2012

Uma Macabéa Real

Por Viviane Cabrera




Desconcertada. Olhar esquivado aos outros. Como um pedido de desculpas por estar ali. Cabeça torta pro chão, ensaiava lágrimas quase petrificadas por dentro e que jamais aflorariam. Não tinha tempo para isso.  A vida a carregava aos solavancos, sem chance de decidir. Tudo que fizera até então, fora involuntário. Contra a vontade.

Na lotação do trem, espremia-se cada vez mais para que coubessem mais pessoas naquele pequenino espaço apertado. A samaritana preferia punir-se com o contorcionismo a ocupar seu lugar de direito.

Por essa razão havia abdicado de muita coisa. Não se achava merecedora. Lembrava sempre de um tio que dizia que só quem sofre aqui terá o céu mais tarde. Por isso a penitência. Por isso a resignação.

O rosto sulcado pelo tempo parecia dizer algo além de sabedoria. Chegava na esfera de mártires. Suas mãos cansadas  evitavam qualquer esboço de movimentos por si, mas por outros até arriscaria. No entanto, quem essa alma salvaria, afinal?

Era essa a pergunta que me fazia diante de tal figura. Quase um "decifra-me ou devoro-te" que atormentava minha observação. Por um infortúnio, desci do trem antes dela. Voltei-me para, mais uma vez, sugar o que ela parecia querer passar. Em vão. 

Agora sentada, fechou os olhos cheios de cansaço e punha-se a sonhar. Foi então, que fiquei satisfeita. Não porque a deixava a mercê da própria sorte, mas sim pelo fato de que ela executava justamente a tarefa que julguei ser impossível. Aquela mulher  também se dava ao desfrute de sonhar.

terça-feira, 27 de março de 2012

Do Gostar

Por Viviane Cabrera






Num instante de desatino, resolve falar. Despejar gota a gota o montante de significados que acumula em seu peito.


De repente, começa: “Você é luz não no final do túnel, mas no começo de um caminho”. Enquanto sua boca deixa escapar sentenças palavrais, o coração pulsa em sobressaltos. Ainda mais quando recebe a resposta que também era ânimo novo no coração. “Não se preocupe com seu sentir, nem com o meu. Deixe a vida nos levar”, disse ele num tom malemolente.

O que foi dito, ecoou na alma daquela garota de olhar distante, nefelibata. Sentia paz tomar conta de si. Tanto se dava quando ou como tudo começou. Importava somente que o querer era recíproco e que o destino se constituiria de futuras escolhas.

Envolvida no aroma da fina flor da plenitude, seguia satisfeita pelo gostar. Contudo, após tanto falar, teve vontade do silêncio. Devia agora degustar o diálogo como quem o faz com o vinho: saborear todos os detalhes que lhe é permitido.

Pensava ao olhar o céu: "Um dia li que somos constituídos de estrela. Deve ser por isso, então, que ele brilha tanto diante de meus olhos".

E assim anoiteceu ela, vendo tornar possível o que julgava ser só para sonhar.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Pimenta e Pureza

 Por: Viviane Cabrera




A magia do amanhecer
está na crença de quem o aprecia.
Simplesmente deixar-se ser
 e celebrar o dia.

- X -

O ritmo alinhado dos pés descalços,
um após o outro na sua vez.
Seguem eles na direção do monte mais alto,
lugar onde a paz reine, talvez.

- X -

Torna-se o ser humano tal qual o sentimento.
Nesses altos e baixos segue o amador.
Anda em frente sem adiamento,
esperando somente o sol se pôr.

- X -

Inquietude de querer serenar,
sem ao menos ter noção
de que nascemos com uma missão.
Somos instrumentos de amar.

- X -

Intransitividade do verbo ativo,
não sei se o conjugo ou se o vivo
para trazer à existência um pouco de leveza
com a combinação intrigante de pimenta e pureza.