Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Crônica do Cotidiano

Por: Viviane Cabrera




Começa a semana. Todos os compromissos e rotinas insistem em reaparecer de forma a aprisionar àquela que anseia por sua liberdade. Ela se debate, pragueja, reclama. Mas não tem força o suficiente para se desvencilhar de tais grilhões. É até irônico pensar que depende deles para chegar aonde quer.
Agarrada involuntariamente à robotização, segue por ruas e becos imaginando como seria ter uma vida longe de tudo que a faz se sentir mal. Apenas um momento em que pudesse dizer não bastaria para iniciar-se uma revolução - ao estilo avassalador, que o mundo árabe conhece bem. No entanto, um não sei quê de Macabéa incorporou naquela garota de sonhos complexos e desejos insaciáveis.
A todo instante que se julgava errada perante os outros, insistia em pedir perdão e até clemência. Mesmo quando nem teria culpa. Porém, o fato de estar sendo desculpada por alguém aliviava o peso daquela existência demasiadamente fatigante. As desculpas aceitas eram suas aspirinas.
Mais do que um remédio, o que necessitava era um caminho que a levasse para longe de tudo aquilo que a perturbava. Todavia, era necessário driblar os obstáculos que se apresentavam sempre a frente de cada vereda. Teria ela ainda fôlego para superar isso tudo?
Já não sabia. Somente seguia retamente na esperança de chegar no ponto onde pudesse dar a partida e dirigir a vida de seu jeito. Um jeito um tanto singular, mas era assim que queria. Resta apenas saber se terá pulso para manter sua escolha.

domingo, 20 de março de 2011

Muito Além das Entrelinhas

Há que se desconfiar do largo e duvidoso sorriso norte americano. Assim pensava Raul Seixas quando compôs "Aluga-se".

 
Por: Viviane Cabrera
 
 


Zorra Total - Tal como a personagem Lady Kate, o Brasil comporta-se de forma ingênua quanto às reais intenções dos Estados Unidos.

Tem até ator global pronunciando-se sobre a visita de Barack Obama em solo tupiniquim, divulgando uma imagem simbólica do yankee. Mas a realidade é bem outra. Enquanto os brasileiros empolgam-se com a presença de ilustre celebridade, há quem esteja muito preocupado com isso.

Olhando por um lado nada platônico, podemos ver que esse encontro entre a presidenta Dilma Roussef e o líder da maior potência econômica não passa de um jogo de interesses comerciais. Os Estados Unidos passa por uma grave crise energética e busca novas alternativas. É aí que entra o Brasil.

Com o advento do Pré-Sal, a produção de biocombustível e a receptividade do mercado brasileiro aos artigos de importação, Obama vê nessa negociação uma oportunidade de manter a nação norte-americana na hegemonia econômica do mundo. Em contrapartida, Dilma Roussef coloca em pauta questões como um comércio mais justo e equilibrado - dado que há muitas barreiras aos produtos de exportação - e as ações protecionistas do Tio Obama Sam. Além disso expôs a intenção de uma possível parceria no setor de educação e de pesquisas. Algumas coisas chocam-se com outras, mas há intenções de ambos que convergem em determinados pontos. Lula se recusou a participar do jantar que ocorreu no Itamaraty com Dilma e Obama. Apesar disso, a presidenta afirmou que "foi uma boa visita".

Em entrevista concedida à BBC Brasil, a analista em relações entre o Brasil e América Latina do Council Foreign Relations, Julia Sweig, afirma que "Há dois níveis de melhora. Um tem haver com o nível presidencial. Isso não é superficial, não é somente pessoal, mas é uma maneira de criar um canal entre Washington e Brasília. Outra dimensão é que iremos ver uma série de acordos práticos para cooperar em desenvolvimento, segurança alimentar em outros países, biocombustíveis, educação, aumentar a conexão entre as duas sociedades".

Obama disse no Conselho de Segurança da ONU:"O que nos mobiliza é a certeza de que um mundo mais multilateral produzirá benefícios para a paz e harmonia entre os povos". Traduzindo para o chulo português, o que o dirigente norte-americano quis expressar era que o intuito maior é deixar todos aculturados, o que facilita a receptividade do consumidor ao lixo que eles exportam - seja cultural ou em relação aos bens de consumo.

Quanto ao resto, esperam total subserviência. Afinal, eles não são os donos do mundo à toa.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Dedicatória

Por Viviane Cabrera



Caí prisioneira de gentil algoz.
Padeço das penas mais sublimes.
Estou clandestinamente segura.
O hipotético confirma-se.

Roubou meu olhar.
Atraiu minha atenção.
Meu coração hoje pulsa fora do compasso.
Nem sobre meus pensamentos tenho mais direito.

E fez-se cativo o cativeiro.
Despertei, quando, à noite,
o Amor iluminou sua face.
E tornou-se Redentor o carcereiro...

Saga

Por Viviane Cabrera




Por você, provei as dores e as delícias do amor.
Experimentei, a contragosto, o flagelo de espinhos
para poder ficar mais perto do teu calvário.
Também experimentei teus manjares,
para saber que gosto tens.

Por você, fiz simpósios.
Criei epopéias.
Retratei seu heroísmo.

Por você, combati infiéis.
Conquistei reinos.
Contrui castelos e te fiz rei.

Por você, voltei-me ao cientificismo.
Resgatei a antiguidade.
Tua história exaltei.

Por você fiz sermões.
Entrei em conflito entre o terreno e o celestial.
Cultuei meu "Rei Sol".

Por você fui simples.
Adotei pseudônimos.
Fiz de você meu "locus amoenos".

Por você voltei às origens.
Fui romântica.
Te entreguei meu condor.

Por você recorri ao evolucionismo.
Fui positivista e socialista
só para te determinar.

Por você fiz rima rica.
Retomei o racionalismo.
Cultuei tua forma.

Por você me tornei nefelibata.
Fui em busca da essência do ser humano.
Purifiquei minha alma com teu olhar.

Por você denunciei a realidade.
Usei linguagens nada poéticas.
Renunciei ao passado e te aceitei.

Por você, choquei a sociedade.
Experimentei vários falares.
Mas adotei apenas tua língua.

Por você, amadureci e me aprofundei.
Fui livre e sintética.
Fui intimista no teu mundo.

Por você, aproveitei a página em branco.
Concretizei meu desejo.

Por você, revisitei todos os tempos.
Fui clássica e moderna.
Tornei-me mulher.
Chorei.
Sorri.
Vivi.

sábado, 12 de março de 2011

Um Brinde à Vida e Aos Sonhadores

Por Viviane Cabrera




Amo a vida.
Aposto nos sonhos mais loucos,
nas sensações mais prazerosas e delicadas.
Acredito na promessa que há em cada amanhecer.
Creio nesse desejo de viver que é latente em mim.

É uma sinfonia que oscila as cifras a cada instante,
mas que mantêm sua base alegre e marcante.

Creio nas mudanças que me rondam.
Nas esperanças que me envolvem.
No sol que ilumina meu caminho.
Na brisa que abre as portas em que devo adentrar.

Agradeço à vida
pela beleza das coisas simples.
Pela simplicidade das coisas boas.
Pela qualidade dos momentos.
Por momentos decisivos
e pela decisão de viver a beleza.



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Lobos em Pele de Cordeiros

Por debaixo das vestes de bom samaritano existem interesses ocultos nas ações empresariais de responsabilidade social.

Por Viviane Cabrera


Capitalismo Selvagem - Visando somente ao lucro, corporações maqueiam suas intenções com ares de bom-mocismo.




Por longa data, as empresas fixavam-se nos lugares sem dar importância aos danos que causavam à comunidade local e ao meio ambiente. No entanto, a pós-modernidade trouxe à tona esse tipo de questionamento, fazendo com que esse setor repensasse suas ações e desenvolvesse projetos para dar algum retorno - seja à população ou à natureza - dos lucros obtidos.
Para fidelizar seus acionistas, fornecedores e consumidores, as corporações fazem amplos estudos sobre os impactos ambientais e problemas que mais preocupam a sociedade. Esse tipo de pesquisa é enviada a sociólogos e antropólogos, sendo encomendada inclusive uma pseudossolução como forma de dizer que sua contribuição foi dada.
Prática que se iniciou na França através da prestação de contas dos investimentos sociais das empresas, foi nos Estados Unidos que ganhou notoriedade sob a designação de balanço social. Mas aqui abaixo dos trópicos, o Brasil aderiu à ideia somente em 1976, quando foi criada a Associação dos Dirigentes Cristãos das Empresas (ADCE), consolidando-se na transição do século XX para o XXI.

Fatores Decisivos

Argumentos como a reorganização do capital e a mudança do cenário econômico, aumento da desigualdade social, crescimento da violência urbana e insuficiência do papel do Estado implicaram a intervenção privada, com ações sociais baseadas no resgate à cidadania.
Entretanto, sempre há um senão. Atualmente, algumas empresas utilizam-se desse tipo de recurso não só para distrair o público de sua real intenção, mas também como forma de conseguir isenção fiscal, fazer lavagem de dinheiro e outras coisas que vão de encontro com o chamado comprometimento ético. Para alguns críticos, a aplicação de um regulamento internacional seria uma solução viável para garantir que o termo "responsabilidade social" ganhe veracidade.
Em campanhas supostamente em prol do meio ambiente, empresas tropeçam nas justificativa. Um belo exemplo disso é a Unilever e sua proposta de inovação - com um sabão líquido concentrado para lavar roupas - aliada a menores índices de carbono emitidos na atmosfera. Responsável pela assessoria de imprensa, Liane Lionel afirma: "Cálculos da Unilever indicam que se todos aderissem ao novo OMO Líquido Super Concentrado teríamos menos 130 mil toneladas da emissão de gás carbônico por ano, o equivalente a 37 mil carros a menos nas ruas".
Fica claro que o interesse da marca, na realidade, não passa de uma estratégia empresarial que visa a um retorno positivo no faturamento, nas vendas, como também à melhoria da imagem institucional junto aos consumidores.



terça-feira, 9 de novembro de 2010

Água Tônica Existencial

Por Viviane Cabrera





Água tônica sempre foi um ótimo auxiliar no combate aos males do estômago e fígado. Pelo menos para mim. Todas as vezes em que padeci de crises do gênero jamais fiquei desapontada, pois esse milagroso líquido funcionou a contento.


Fico cá pensando com meus botões que, ultimamente, as principais preocupações humanas são as existenciais. E algo me leva ao tilintar de neurônios: tal qual a ideia fixa que se equilibrava no trapézio de Brás Cubas, uma agarrou-se à meu sistema neural e de lá não mais saiu.

Imagine só se, sob a promessa de um alívio instantâneo, surgisse no mercado internacional (olhe minha modéstia!) um líquido que combatesse os males da existenciais! Seria algo explêndido, não? Com publicidade do tipo "A Insustentável Leveza do Ser", minha revolucionária água tônica de quinino seria associada à algum psicotrópico que arrancasse a cruz carregada pelo indivíduo desde seu nascimento. Millan Kundera teria lá sua parcela de culpa pela escolha do slogan.

Deixo claro que não entendo nada de farmacologia. Talvez seja apenas a mesma sede de nomeada de Cubas me assaltando de mansinho... Sem conhecer o terreno à que me proponho explorar chega a ser somente uma pretensão.

Entretanto, com um pouco mais de reflexão, sinto-me uma Macabéa que longe de ser passiva, busca desesperadamente algo que sacie suas dores da alma. Seja uma aspirina ou uma água tônica existencial. E se Freud não explicar, com toda a certeza, Clarice Lispector o fará.