Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Noturno


Por: Viviane Cabrera


Lua alta e cheia
Faz com que tua imagem venha em pensamento,
 E nele vagueia.
Ao resto já não mais me atento.
Fico a sonhar,
Com a lua ali inteira de memórias a emaranhar.

Desse sentimento intratável,
Pulsam lembranças de um instante
Em que o desejo já em mim inabitável
Fez do querer vontade incessante
Do teu corpo a tomar o meu,
Do meu desatino a se misturar com o seu.

Nos teus braços entregue,
As curvas da minha pele
Clamam ainda que me navegue
E com as bênçãos dos deuses da alcova zele
Para que esta fome um do outro
Se satisfaça no gozo doutro.

Teus lábios escorregam e descobrem meus seios,
Dois núcleos sensitivos do meu deleite.
Teus olhos em volúpia permanecem cheios.
Peço que meus gemidos, aos seus ouvidos, aceite.
E das bocas num encontro perfeito,
Sigo até conseguir versar à poesia do teu prazer liquefeito.

E do amor na carne, querido,
Meu sentimento por você está explícito.
Pois que nessa entrega está a revelação que o silêncio faz dorido.
Porque tu és as palavras belas que em versos recito
Na quietude e num rebuliço desmedido.

No receio de não ser esse amor correspondido.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Palavra oculta



Por: Viviane Cabrera




Escreve. Apaga. Escreve mais algumas linhas. Olha para elas, analisando frase por frase, palavra por palavra, sílaba por sílaba, letra à letra. 

Escreve mais um pouco. Para. Pensa. Olha ao redor e suspira. 

Volta para o texto. Sorve toda a semântica daquela construção. 

O toc-toc do teclado começa a causar angústia, ansiedade. Fica-se em meio a um algo que precisa ser lapidado, mas que não se vê a hora de terminar. 

Novo olhar crítico. Corta uma palavra aqui, insere uma vírgula ali. Ponto. Ponto. Ponto. 

Tudo terminado, texto redondinho e raciocínio claro, objetivo, como deve ser. Está ali todo o contexto necessário para se fazer entender. 

Última olhada antes de enviar o texto. 

Começa a parecer exagerado. As palavras se avolumam diante dos olhos a ponto de dar nó na garganta e medo do possível efeito. Bate a dúvida: enviar ou apagar?

O mouse flutuando por cima do botão enviar e o coração em sobressaltos. Enviar ou apagar? A cabeça roda em giros constantes. Enviar ou apagar? Um rosto invade a memória e acentua o impasse. Enviar ou apagar?

Num rompante, fecha a aba da página de internet. Não enviou. O medo fez com que as palavras jamais ditas se transformassem em uma cortina pétrea de incertezas e desenganos na frustração do silêncio.

Melhor assim. 

No silêncio não é preciso pontuar nada. No silêncio somente um rumina pensamentos e dizeres para si. 

No silêncio é onde se pode recostar e esperar. Pelo quê? Boa pergunta.