Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Dos pés e seus passos


Por: Viviane Cabrera




 Pé ante pé, eles sempre passeavam pelo asfalto e o que mais viesse pela frente. Descalços ou cobertos por qualquer tipo de proteção, percorriam acelerados alguns caminhos que, por vezes eram sinuosos. Em outras, planícies floridas.

Quando na tenra idade, os pés arrastavam-se na tentativa de aprender como se sustentar acima do chão. Logo em seguida, saltitavam buscando satisfazer a ansiedade que os consumia. E o que parecia uma simples caminhada transforma-se em uma jornada repetitiva até o fim.

E vieram dias de correria. De um lado a outro, os pés perseguiam qualquer tipo de objetivo que não se sabia. Somente obedeciam. Eram estradas inteiras carregando sobre si o peso de um mundo. Por serem virtuosos em sua função, aguentavam calados e sem o menor sinal de insubordinação sua incumbência de chegar a um determinado destino.

Fosse frio ou calor lá estavam eles dando passadas que o transportavam lugares afora. Descanso pouco e recompensa quase nenhuma, cumpriam a incansável tarefa de ir rumo ao topo.

O problema é que ninguém havia lhes dito que depois do topo estava a descida. E foi nessa surpresa ingrata besuntada de fel que os pés se viram incapazes de qualquer execução. Tropeçaram, enrolaram-se e rolaram abaixo levando consigo o que nele estava acoplado. Triste enredo este que Sísifo também experimentou, chegando ao cume para depois enfrentar o desgosto de ver seu esforço indo embora ladeira abaixo.

E o que era luz, tornou-se trevas.

Ao fim da tragédia, quis a ironia da existência que seu destino fosse inércia embaixo do chão, a despeito do tanto de movimento que foram obrigados a fazer em vida. De uma obediência cega à cegueira obscura do presente que possuíam, contentavam-se apenas com as pegadas deixadas pelos caminhos por onde passaram. Quanto ao resto, estavam libertos. Afinal, nada mais pesava sobre si.