Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Chover


Por: Viviane Cabrera




Enquanto o tempo passava

Com um vento forte soprava

Eu chovi num desalento salgado,

Num pranto até então ignorado

E que agora rebentava forte

Reclamando um pouco de sorte

Depois de dias desgraçados

Por caminhos amaldiçoados,

Purgando a treva de uma alma torta

A quem só a cura realmente importa.


Num choro convulso,

Trovoei de impulso

Ao resgatar memórias,

Lembranças das mais inglórias,

Que atormentavam a alma

Tiravam o sono, a paz e a calma,

Remoendo as cicatrizes no espírito

Provocadas por um sofrimento empírico

Que da pele passou para outras camadas profundas

E cada dia mais afunda.


E de tanto chover

Inundei-me sem saber

Ao menos um meio para me salvar.

Com água no pescoço, sigo a clamar

Um jeito de estar liberta

Em segurança, forte e coberta

Por uma proteção divina

Para que eu possa seguir minha sina,

Gozar a vitória

E reescrever, enfim, mais esta história.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Tempos Modernos


Por: Viviane Cabrera


(Imagem de Bianca Pozzi)


Os jardins andam floridos
Mas ainda que todos preenchidos
Num olhar mais detalhado
Pode-se notar, amargurado,
Que tudo é plástico.
E de elástico
Passou a ser a humanidade.
Vive na acuidade
Por perceber a vida ficando pequena,
A falta de algo que valha a pena.

Perdem-se por descaminhos ocultos
Misturam-se em tumultos
E integram um grupo de aflitos
De pobres espíritos inauditos
Gritando para serem ouvidos,
Lutando para não serem abatidos
Pelo sistema que dita o sol de nossos dias
Onde o capitalismo institui uma autarquia
Em que somente quem tem dinheiro possui as chaves da saída
E manda em todas as almas combalidas.



sábado, 13 de dezembro de 2014

Conselho ao Coração em Desassossego

Por: Viviane Cabrera



Na hora em que o vento sopra forte
A alma inquieta precisa resgatar seu norte.
Buscar caminhos e encontrar-se com a sorte,
Driblando a mulher vestida de morte.

Pois que pedras surgem na estrada
E cabe ao caminhante tomar uma medida arrazoada
Para que no meio da empreitada.
Não acabe entrando numa cilada.

Mas eis que flores também surgirão
Apesar das ervas daninhas que advirão.
Apesar do deserto e destruição
E para o desaforo daqueles que nos causam aversão.



Poema Rascunho

Por: Viviane Cabrera




Tenho dentro de mim,
Não sei se bom ou ruim,
Algo que queima, destrói.
Qualquer coisa que por si só corrói.
Algo que faz com que em espelhos
Apenas consiga ver escaravelhos
E o meu sangue a jorrar
Por entre linhas, páginas e trincheiras a barrar.


Mas apesar de tudo, jogo-me no primeiro verso.
Agarro o segundo para me prender a esse universo.
A poesia,
Toda misericórdia em ver minha acrobacia,
É a única que estende a mão
E me enlaça como mãe em uma vinculação
Que há de ser alento dessa vida torta
Onde o que há é a longa espera da abertura de alguma porta.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Alma Selvagem


Por: Viviane Cabrera




Desperto, como que de um sonho bom
E da alma me vem um som
Afinado em um tom
Que se mostra harmônico dom,
O qual só sei viver com.

Movida pelo espírito criativo,
Com uma ânsia pelo inexplicável como incentivo,
Me abandono no sentido instintivo
Que ainda que abrasivo
É o que mantêm meu ser vivo.

E vivo a espreitar o momento
Em que a alma encontrará seu alimento,
Em que será vão qualquer argumento,
Em que o espírito estará bento
Com o etéreo e a substância em casamento.

Vem uma fome de tudo que é selvagem.
Mergulho nessa viagem,
Sem volta e com pouca coragem.
Mas sei que há de haver vantagem
Nessa vital aprendizagem.

Gosto do que é incerto,
De enfrentar o que vier de peito aberto.
Do meu jeito, o errado eu conserto.
Do meu jeito, no que estiver vazio eu enxerto
O imprescindível para manter meu ser pleno e liberto.

Corro livre pelo caminho,
Curtindo a balada do eu sozinho,
Retirando dos pés cada espinho
Que acumulei entorpecendo meu ser aos pouquinhos
Quando me lancei em meio ao rodamoinho.

Tudo por gostar do que é intenso,
De experimentar o denso,
A freneticidade a que meu ser está propenso
E que, penso,
Deixa o horizonte da existência ainda mais imenso.

Coisas de uma alma esfomeada,
Movida por uma angústia desatada,
Que se deixa apeada,
Para erguer-se num jogo ou empreitada,
E depois dar a última cartada.



terça-feira, 4 de novembro de 2014

Desapegue



Por: Viviane Cabrera




Desapegue.
Negue
Essa ideia que te persegue,
Que não te deixa em paz e você não consegue
Estar mais do que entregue
Ao momento de desenlace a que se segue.

Desapegue.
Consuma a substância que é o momento para que a ti sossegue,
Coisa vil que em tua alma descarregue
Toda a sorte que derruba e ergue
Para que a bateria vital recarregue
Sem o espiritualismo vão que alguém pregue.

Desapegue.
Essa vida é um tobogã pedindo para que escorregue.
É oceano a encontrar alguém que navegue
E em suas águas revoltas a salvação enxergue.
É o benefício do trabalho a quem o empregue.
É destino certo para quem no caminho prossegue.

Desapegue.
Muito do que passou doeu, mas é só a ponta do iceberg.
Acostume-se ao gosto metálico e não o delegue
A outro. Não o postergue,
Para que assim a alma não envergue
Em curvas onde a respiração ofegue.

Desapegue.
Tudo mais que te aflija, a último plano relegue.
A essa batalha, não arregue.
Não deixes que na cara o destino te esfregue
Que perdeu como que um tesouro que legue
A oportunidade de ser um livre tuaregue.

Desapegue
Desse amor que persegue.
Negue.
Porque a vida prossegue
Qual flor que cresce por ter quem a regue.
Desapegue, pois é vida que segue.





quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Caminhada


Por: Viviane Cabrera




Mil passos.
Trilhas feitas de espaços
Em que me perco
Onde as ideias fazem um cerco
Para tentar dissuadir
Minha decisão de abstrair.

Na abstração me escoro
Na ânsia de fortalecer e devoro
As possibilidades de me livrar do desalento
Que é doar-se tanto e receber a migalha de um momento.
Vou parar de pensar e seguir adiante
Como se isso fosse algum calmante.

E apegada à névoa de devaneios
Crio expectativas, multiplico diversos anseios.
Mas a cada passo dado
É para trás que abandono o passado
Deixando dele o que não vale a pena,
Os atores ruins, tirando de cena.

Pé após pé,
Deslizando quase que num auto de fé
no asfalto pulsante
de um caminho angustiante
rumo ao nada,
pronta para dar a última cartada.



quinta-feira, 17 de julho de 2014

O destino de Lilith


Por: Viviane Cabrera





Era uma vez uma dessas histórias simples e que prenunciava final feliz. Aconteceu não muito longe, mas nem tão perto. Só o que se pode afirmar é que a amiga de uma amiga de uma amiga minha era contraparente da pessoa em questão.

Lilith florescia vida afora e buscava para si o destino de sossego que via brotar em sua família. Casar, ser feliz e bem amada. Ter filhos, netos e bisnetos. Morrer amparada por uma família criada por ela. Bem como sua mãe, sua avó. E como a mãe de sua avó e a avó de sua avó. As escolhas – se é que podiam ser nomeadas como escolhas – repetiam-se há gerações. Talvez fosse coisa de sangue, da raça daquelas mulheres. Ou talvez, apenas uma grande falta de criatividade que as acometia.

Nascera para a carreira de esposa, mãe e dona do lar. Do contrário, teria vindo com outro sexo – como dizia o pai. Nas brincadeiras de criança, a mãe ensinava a filha a fazer comida nas panelinhas rosadas de plástico. Quando da primeira menarca, a avó correu ensiná-la a bordar, costurar, a cozinhar.

A mãe a deixava livre para passeios e para experimentar o que bem quisesse, apesar dos protestos do pai, sempre ciumento. Queria que a filha aproveitasse o que a rigidez da educação de seus pais não permitiram: um pouco de vida antes de se casar.

A moça Lilith era vivaz. Possuía grande vontade de buscar respostas, de se aventurar, de sorrir até sem motivo, de tentar compreender os porquês da existência. Do tipo que precisava abraçar o mundo para sentir que tudo aquilo fazia algum sentido.

Sugava a seiva que extraía de cada instante. Minuto a minuto, como se fosse o último. Adorava viajar sozinha. Outros rostos, novos lugares e situações empolgantes. Queria eternizar esses momentos, engarrafa-los, aprisioná-los dentro de si.

Mas sua ânsia por liberdade tomou outro rumo ao se apaixonar por um homem chamado Adônis, um empresário amigo de seu pai. Envolveu-se tanto que voltou a querer o ar sereno que as mulheres de sua família desfrutavam ao lado dos maridos – coisa que talvez nunca tenha saído de sua lista de desejos. Tão logo se conheceram, noivaram e casaram. Os filhos vieram em seguida: dois meninos e uma menina.

Sua vida passou a ser cuidar da bela casa em que moravam, que ficava no belo bairro da mais bela cidade do mundo. Seus filhos permaneciam impecáveis graças ao dispêndio que a anulação de sua vida permitia e aos cuidados que dedicava ao trio. Presa às responsabilidades, Lilith já não vivia como antes.

Ao se levantar, interrogava o espelho, tentando descobrir onde aquela jovem de antes foi parar. O que percebia era que o tempo passava como um trator sobre si e, impiedoso, jogava pás de cal sobre o terreno que outrora foi fértil. Todos os dias eram iguais, sob o mesmo ritmo e constância da rotina marcada e envenenada de acordo com a escolha que fez.

O que mais lhe envenenava mesmo era o casamento. Ver o que era fogo de um amor pleno reduzir-se a brasas que tendiam a apagar conferia tamanho amargor a sua alma que gerava angústia. Sempre tão intensa, tinha como inconcebível que aquilo pudesse acontecer justamente com ela.

Seus pensamentos passeavam por lugares os quais já visitara e que estava, então, impossibilitada de ir. Às vezes, em meio a conversas com os outros, perdia-se nesse trajeto e se dispersava por completo das situações. O marido julgava constrangedor e repreendia a esposa. Ela, anestesiada, já não ligava. As memórias eram a morfina para as chagas abertas que trazia na alma.

Adônis e os filhos cismaram de viajar em um feriado de Páscoa. Lilith fingiu uma indisposição qualquer de última hora e ficou em casa. So-zi-nha. Quanto tempo fazia que não ficava sozinha? Já perdera as contas. Perdera as contas, a paciência com as coisas e as pessoas, e a vontade de prosseguir daquele jeito.

Decidiu lavar a casa toda. Esfregão, escovinha, água e sabão, panos e mais panos para secar. Cera para brilhar o chão. Lustrar móveis, arrumar os livros nas estantes e os enfeites nas prateleiras. Trocar as roupas de cama de todos os quartos. Tirar os lixos. Aparar a grama do jardim, colocar ração para o cachorro. Alpiste para os pássaros e não se esquecer de escancarar a porta da gaiola.

Terminado o serviço na casa inteira, preparou um banho com sais na banheira de louça antiga. Mas antes, tomou uma ducha. Ao olhar para o ralo, percebeu que permitiu por muito tempo em sua vida que ela própria e as coisas que realizava fossem pelo cano.                    

Deitou-se leve nas águas mornas que envolviam o corpo. Adormeceu certezas e angústias enquanto fechou os olhos e se deixou encharcar. Levantou-se, enrolou uma toalha no corpo e foi na direção do guarda-roupa. Escolheu o melhor vestido e sapato, o melhor perfume e a maquiagem preferida. Pegou uma caixa no armário do marido e foi até a sala.

Em passadas lentas pela casa, notou que o chão estava mais limpo do que nunca. Ligou a vitrola e colocou um vinil barulhento. Um maxixe do tempo de sua avó, relíquia que ganhara da parente. Dançou, rodopiou, se libertou.

Depois desse rito, pegou a caixa que tirara do armário do marido. De dentro, Lilith sacou uma arma e a enfiou na boca. Respirou fundo. Pensou nos dias felizes. Fechou os olhos e puxou o gatilho.


O chão branco deu lugar ao vermelho intenso do mar de seu sangue. Foi-se em busca de mais uma viagem. Só que dessa vez, sem volta.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Derramar


Por: Viviane Cabrera





Presa nesse labirinto,
Fluxo violento do acaso faminto
Por intensamente me devorar
Toda vez em que tento vigorar
Algo que morre
Algo que escorre
Por entre os dedos calejados.
De um jeito desordenado,
Acredito que preciso seguir em frente
Resolver algebricamente
Coisas que seguem sem solução.
Coisas que me causam aflição.

E de um lado a outro
Qualquer oráculo ou douto
Que queira me cercar de bons conselhos
Há de perder-me ao viço vermelho
Da inconstância dos meus atos.
Dissolvo-me na liquidez dos fatos
A que estou exposta,
Esperando resposta
Das perguntas que ainda não fiz.
Sigo como mera aprendiz,
Desconstruindo tudo que sou,
Tentando me encontrar nos caminhos por onde vou.


De um lado a outro
O coração pulsando solto
De amarras vis
De angústias azuis.
De um lado a outro,
O coração envolto
Da maré cheia de lodo
Que há de marcar meu êxodo
Para algum lugar
Onde não se possa localizar
Vestígios do que se foi um dia.
Rastros dessa arritmia.

Vai e vem.
São muitos, mas não vejo ninguém
Que possa compreender
Um pouco desse fogo que insiste em arder
Sem queimar ou deixar marcas aparentes.
Fogo que consome catastroficamente
O que edificado
Se mantêm, apesar de ter estado
Em ruínas em outra circunstância.
Na tentativa de consolidar uma constância
Fazendo da vida um palco imenso
                        Onde o espetáculo jamais estará suspenso. 



domingo, 29 de junho de 2014

Ar de passarinho


Por: Viviane Cabrera





Numa lânguida tarde de outono

É no silêncio do vento que me abandono
A observar o que está em volta
A ir-se embora.

Mas antes,
Interiorizo os detalhes de minha obsessão constante
Em detectar memórias que suscitem gostos e sentimentos
Que marquem um momento.

As folhas no gramado gasto multicoloridas
Vem me entregar uma passagem só de ida
Às profundezas da alma minha
À curtir o que a existência cozinha.

Das árvores surge o canto de um passarinho,
Lá do alto, de seu ninho,
A narrar sua afetividade com o lugar,
Coisa inteira que se confunde consigo para acrescentar.

Canto intenso e dolorido
Que tenta ofuscar o alarido
Que sufoca a tudo,
Que tenta manter seu entorno mudo.

Entre altos e baixos a sublime melodia
Há de em mim fazer moradia
Enquanto eu puder respirar
Para que eu possa na vida mergulhar.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Escola


Por: Viviane Cabrera






Bate o sinal para a entrada. A inspetora de alunos convida a todos a entrar nas salas com um sutil empurrão nada carinhoso. E, uma vez dentro da sala de aula, o dia começa. O professor enchendo a lousa de matérias e eu tendo de copiar tudo no caderno. A mão cansa e a alma também. Sempre a mesma coisa.

Nove e meia e o intervalo chegou. Desço para o pátio com o Fábio, o Caio e o Jean pra dar aquela zoada e desestressar. A gente conversa, ri e mexe com as meninas. Só de leve, porque na escola todo mundo fica em cima, enchendo o saco e vigiando o tempo todo.

Gongada mais uma vez. Hora de subir pra sala. Dobradinha de matemática. A lousa lotada de contas repletas de letras e números que não dão resultados óbvios. Bate aquela preguiça de fazer conta grande e complicada. Não que eu não saiba, mas é treta.

Como ouvi o professor dizendo que é pra nota, bora me aplicar para conseguir uns pontinhos. Esse semestre tá difícil passar, afinal, já derrapei em algumas provas. Tá corrido. Faltam apenas cinco minutos para terminar o exercício para entregar e eu não fiz nem metade.


O sinal da escola marca o fim. Acabou um dia de aula. Foi-se uma oportunidade, mas amanhã vem outra. Por enquanto, vou esperar mais um sinal. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Dois

Por: Viviane Cabrera




Dois.
Algo para durar até depois
Do início e do que não tem fim.
Sutil e leve feito cetim.

Unidos pelo mesmo ensejo
De sedimentar um amor e realizar o desejo
Existente na combinação de duas almas,
Mistério do interior de mãos e suas palmas.

Construção das vivências
De inúmeras experiências
De boas e más situações
Unindo retalhos e frações.

O quanto de mar
Há de um dia inundar
O céu desse amor
Para destruir barreiras e anular toda dor?

Na esperança desse momento
Seguem os enamorados com tal pensamento
Fixados num eterno instante,

O de fluir numa felicidade fulgurante.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Silêncio

Por: Viviane Cabrera





O silêncio é cinza,
É vácuo de uma tarde ranzinza.
É rua escura e vazia,
Numa criação árdua de carpintaria
A desfazer as imperfeições de ruídos
Para não sobrar estampidos
Que perturbem a ordem
E que no coração eclodem.

O silêncio é barulhento.
Mais alto que qualquer argumento
Que o pensamento atrapalha,
Avacalha
E nos bota em confusão
Distraindo na intenção
De perceber o que há ao redor para ecoar
O que cá dentro está a incomodar.

Na quietude do tempo
Um vento
A interromper uma multidão
Que grita e diz não
Às pausas necessárias que a vida exige,
Ao acaso que a nau da existência dirige
Pelo mar sem fim
Do silêncio que se instaura em mim.

Não há o que fazer,
Posto que meu prazer
Está em serenar o que cá dentro grita,
Sufoca e incita
A uma violenta revolução
De sangue, suor, gozo e criação,
Que me sobra para provar
Do silêncio o seu mais puro néctar.



sexta-feira, 13 de junho de 2014

O pitoresco caso de uma existência

Por: Viviane Cabrera







Sem luz. Sem sons fortes. Sem possibilidade de movimentação. O breu era constante e a vida escorria das mãos daquele homem tal qual água escapa fácil pelo ralo.

Nascera em um dia de sol escaldante. Era fevereiro. O céu conservava-se limpo, sem nuvens. O pai fumava charuto com amigos e familiares, na sala de estar ao estilo art noveau, para comemorar a chegada de um varão. O espaçoso ambiente acarpetado ganhava uma aura pesada de expectativas sobre o novo ser que ali agora habitava.

A mãe procurava achar forças, depois de um parto complicado feito em casa. As avós faziam milhares de recomendações em relação ao período de dieta da mulher e aos cuidados que seriam necessários com o pequeno.

O menino abriu os olhos para avistar um mundo de novidades. Foi crescendo e descobrindo o que dantes jamais experimentara. Sentiu fome, frio. Ficou alegre. Triste. Chorou e sorriu. Amou e desamou. E nessas experiências e contato com os outros, foi tornando cada vez mais concreta a humanidade em si.

Tudo seguia conforme a lógica do tempo, mas não a dele. O garoto observava a tudo e interiorizava aprendizados. As verdades, os acontecimentos, batiam em sua alma com a violência de pedradas. As cicatrizes que isso produzia eram intratáveis. Verdadeiras chagas abertas. E a dor era tamanha que os dentes rangiam e sua face se contorcia de sofrimento. Inclusive, deixou de sorrir.

Foi quando se tornou homem, carregando o peso de diversas responsabilidades, cobranças e expectativas alheias. Apesar dos pesares, desconectava-se pouco a pouco. O silêncio passava a fazer morada nele e cada dia mais, falava menos.

Arrastava-se, sufocado pelo que não dizia. O olhar era de alguém em franco desespero, pedindo socorro. Sua figura começou a afastar as pessoas.

Pensou que seria bom tentar uma reaproximação. No entanto, refutava isso logo em seguida. Qualquer esforço no sentido de agradar ou chamar o outro para si parecia-lhe em vão.

Resolveu abandonar a ideia e tudo mais. A necessidade de se libertar era emergencial. Caso não ocorresse, haveria uma explosão em breve. Sabia que algo estava para detonar dentro dele e tinha medo do possível resultado. E em virtude do esmagamento que a realidade lhe causava, precisava tomar uma atitude. Para ontem.

Partiu na calada da noite, tendo nas mãos apenas o peso da própria existência. O caminho era uma incógnita. O destino final, igualmente. Dos olhos brotavam lágrimas que traziam à tona o que antes se mantinha represado. Enquanto isso, os pés descalços tateavam a estrada.

A noite começava a se despedir e o sol vinha pedir passagem. Ao longe, os olhos cansados avistavam um barranco com uma fenda. Decidiu ali se abrigar.

Três dias e três noites corriam diante do homem. Ele somente fechava os olhos. Olhava para dentro, tentando achar algo que se perdeu. Já não tinha fome, frio ou medo e entregava-se cada vez mais a um resignado silêncio.

Até que uma tempestade fez com que houvesse um deslizamento de terras e o deixasse soterrado. Despertou quando já não teria jeito de fugir.

De repente, veio à cabeça os parentes. Conseguiriam eles encontrá-lo no meio do nada e esmagado como estava ?

Riu com pesar e quebrou o silêncio pela última vez: “Como poderiam me encontrar se nem eu o consegui?”.

Pegou todo o ar que pode e, num suspiro derradeiro, libertou-se.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Do amar


Por: Viviane Cabrera





Quando seu olhar inflamado,
dois lumes em desejo cravados,

me fulminam sem piedade
na plenitude inequívoca da combustibilidade,
e sua boca balbucia um ‘TE QUERO’,
a reação vai além do que espero.
Sinto o corpo incendiar por inteiro,
minha alma envolta nesse atoleiro.
Tremo, da base ao topo.
Sou tua escrava, teu escopo,
do verso e avesso,
e em todas as curvas deste corpo travesso.

O desejo me toma por completo.
A paixão faz de mim seu mero objeto.
Ao fixar meus olhos nos teus,
já não sou mais eu,
já não é mais você
a me envolver.
Somos dois a desfrutar o néctar divino
desse amor sequioso e genuíno
que preenche os dias do calendário,
completa o imenso abecedário
e transforma a vida num intenso inflamar

de amor, criadouros de sonhos e discípulos de amar.