Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O Aniversariante


Por: Viviane Cabrera



O clima era de consternação. Pairava um silêncio estrondoso a um canto e cochichos maliciosos a outro. Os olhares eram de espanto. Até que em alguns instantes, as pessoas começaram a ir embora – como se a ausência pudesse apagar o que sucedera ali.

Vinte e quatro de maio. Era aniversário de Oswaldo. Cinco décadas completas de muito trabalho, grandes esforços para conquistar diversas coisas e uma linda família formada por esposa, três filhos e um neto. Motivo de sobra para comemorar. Dois dias antes iniciaram os preparativos. As bebidas estavam para gelar, os quitutes tomaram forma e a decoração da casa estava pronta.

Chegado o dia, todos se arrumaram de maneira impecável. A não ser Oswaldo. Esse se vestiu displicentemente. Camisa verde listrada com mangas curtas, colocada por dentro de uma calça cáqui adornada pelo cinto marrom escuro com marcas do tempo. Desceu as escadas e viu a casa cheia. Eram parentes, amigos, conhecidos, desconhecidos e agregados de todos eles. Deu de ombros.

As bebidas estavam sendo servidas. O aniversariante sacou uma delas da bandeja que rodopiava na mão do garçom pela sala. As pessoas o paravam por onde passava. Eram votos de felicidades, elogios e piadas sem graça. Mas Oswaldo estava alheio àquilo tudo. Como se apenas o corpo estivesse presente, não sua alma.

Após horas naquele torpor, uma sacudida o fez acordar. A filha pedia para que o pai se dirigisse à cozinha, onde cantariam parabéns.

E naquela melodia compassada, o homem fitava os rostos como se analisasse friamente a um bichinho estranho que se encontra no jardim. O estranhamento o consumia. Queria correr, gritar. Queria sair dali.

Um “Faz o pedido, pai!” o acordou mais uma vez. Olhou firme para o bolo – retangular, com uma boa altura, o que significava que o recheio estava caprichado -, assoprou as velas e fez o que deveria fazer. 

Saiu de lá sem dizer palavra. Retornou à sala com a quietude em si próprio. Os filhos abraçam Oswaldo e perguntam quase que em coro: “Diz aí, velhão! O que você pediu, hein?”.

Silêncio. O aniversariante estava com os olhos fixos no chão e nas mãos um copo de uísque. Sem modificar a expressão, um sorriso tímido e diabólico o fez disparar:



- Pedi para morrer.


Quem estava ao redor julgou tratar-se de uma pilhéria, uma brincadeira somente. Não era. Dava para ver no semblante do homem. Um mal-estar pairou na casa e os familiares de Oswaldo sentiram-se como que traídos. “Como pode alguém em sã consciência pedir a própria morte na celebração de seu nascimento?”, questionavam uns aos outros na tentativa de assimilar tal fato.

Oswaldo emudeceu. O sorriso cáustico continuava em seu rosto. Parece que se encarcerara em um mundo paralelo, divertindo-se com o ocorrido. Podia ver um quê de cômico naquilo tudo e degustava o instante com o apetite de predador faminto.Todavia, o que mais lhe causava satisfação era comunicar o que sempre quis.

Foi o grito que estava preso há muito na garganta. Não queria deixar de ser criança. Cresceu sob a pressão do tempo e circunstâncias as quais não pôde optar. Namorou sem querer compromisso. Teve de casar, graças a uma gravidez indesejada. Nunca quis ser um whorkaholic. Foi obrigado para sustentar as bocas que dele dependiam. Não pensara jamais em envelhecer. E envelhecia. Dia após dia, diante do espelho maldito que lhe denunciava novas rugas, constatava a contragosto que os anos escorreram por entre os dedos. Impossível voltar atrás.

“Então para quê se não tenho absoluto controle sobre minha vida? Não vivo propriamente. Tenho respostas maquinais para o que se faz necessário. Pois que acabe logo essa merda. Nem coragem para dar cabo disso eu tenho!”, pensava. Até que, chegando o aniversário, veio-lhe a ideia de dar corpo ao fardo que carregava no peito em um pedido. Quem sabe ao menos uma vez Deus o ouvisse.

Parte de seu desejo fora consumado. Agora, o Oswaldo que conheciam agonizava no imaginativo alheio devido à estranheza da situação. Mas não queria saber o que os outros achavam. Loucura por loucura, ele já vivia em uma, preso a convenções rasas as quais algemara-se ao longo da existência.


“Talvez seja a morte chave mestra dos meus grilhões”, ruminava o aniversariante com a face corroída pelo sorriso ácido de quem assassina um inimigo. Oswaldo precisava matar Oswaldo para só então permitir-se a um recomeço. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Herança maldita

Por: Viviane Cabrera






De novo, não! Odeio quando ficam pedindo arrego. Meu negócio é chegar e: PÁ PUM! Sem muito diálogo. Isso atrapalha o serviço. Mas eles não sabem dessa dificuldade. Nem ao menos conhecem o que se passa nesse ofício.

Desde pequeno, via pai saindo para as viagens que fazia. Ia ele com ar contrariado, de mala debaixo do braço. Um carro passava em nosso quintal e ele seguia com o tal motorista que nem sabíamos o nome. Eu e mãe ficávamos esperando ele voltar com dinheiro. No entanto, a origem disso era um mistério. Pai nunca comentou nada sobre o trabalho. Nem comigo ou mãe. Era um sujeito calado, sisudo.

E assim foi até o dia de sua morte. Quarta-feira, 11 de dezembro de 1993. O relógio da sala marcava oito da noite e eu acabara de chegar de meu serviço de ajudante de pedreiro. Mãe chorava tanto que o Jequitinhonha inteiro poderia ser inundado. Colocou a mão em meus ombros e disse: “Mataram teu pai”.

Uma revolta tomou-me de assalto e comecei a quebrar as coisas da sala, como se isso fosse aliviar a dor que parecia abrir meu peito. E ao bagunçar tudo, foi que descobri a vida oculta de meu pai.

Guardado dentro de um vaso com flor de plástico havia uma 38 - dessas armas antigas que a polícia usava antes da pistola ponto 40. Estava ainda manchada de sangue. Perguntei pra mãe o que havia de ser aquilo. Mas ela estava tão pasma quanto eu. Examinei mais uma vez o vaso e vi um papel enrolado ali. Tirei com certo cuidado e o abri. A letra era de pai.


“Quando essa carta for para a mão de vocês, já não estarei mais vivo. É aqui que tomo coragem pra dizer que tudo que fiz foi por essa família. Foi pra dar boa vida pra você, Claudineide. Foi pra criar direito nosso menino, o Lucivan. Foi para que ele não tivesse de ir pro mesmo ofício que eu, tendo de matar gente como se matam porcos, a sangue frio. Mas talvez, não tenha mais jeito...


Desculpa contar isso só agora. Sinto vergonha do que fiz. Mas foi tudo por uma boa causa: o bem-estar dos dois.

Se agora vocês estão lendo esta carta, das duas uma: estou morto de velho ou um matador de outro bando veio vingar morte de alguém. Se for a segunda opção, peço ao Lucivan que assuma meu posto e vingue minha morte. Sangue só se paga com sangue, meu filho. Sangue só se paga com sangue...

 Deixo três engradados de dinheiro enterrados embaixo da mangueira que plantei quando o Lucivan nasceu. Foi tudo que ganhei com essa vida que levei. Agora, é de vocês.

Mulher! Cuida do nosso filho e ajuda ele a arrumar uma moça boa. Filho! Cuida da tua mãe e não esqueça do que te pedi. Se fui morto, mata! Procura o Jackson que ele vai te dizer quem procurar e o que fazer.

Amo vocês,

Genivaldo”.


A cabeça começou a dar voltas depois daquelas linhas. Não tinha dúvidas que pai escreveu. Só não podia crer no que estava lá. Meu pai? Matador? E eu ter de vingar morte?

As perguntas faziam minha mente rodopiar. Tanto que passei mal e desmaiei. Quando acordei, mãe estava preocupada. Mal me deixou falar.

- Filho. Você vai fazer o que teu pai pediu. Tem que fazer. Por ele. Por tudo o que ele fez por nós.

Queria ter dito que longe de mim ter de matar alguém, só que as palavras sumiam da boca. E emudecido segui para falar com o Jackson, vizinho nosso. Como que a minha espera, seu Jackson puxou debaixo de uma mesa uma caixa e abriu sem demora. Eram armas que nunca vi na vida e que a partir daquele instante seriam minhas novas ferramentas de trabalho.

Ele me contou rapidamente sobre o assassinato de pai e de quem fez isso. Disse que o trabalho é fácil, que o esquema era nunca olhar nos olhos dos que tinham a morte encomendada. Eu permanecia mudo. Era ainda muita informação para mim.

A primeira morte a gente não esquece. O estampido do tiro, o sangue jorrando, os olhos eclipsados depois do serviço consumado, o gélido toque do defunto e o peso que lhe cai ao corpo morto. Aprendi que acaba sendo mais fácil levar o sujeito pra vala vivo e lá matar. Dá menos trabalho e não irrita a coluna, que nos tempos de ajudante de pedreiro já dava sinais de problemas.

De lá para cá, comecei a trabalhar para seu Jackson e muitos morreram pelas minhas mãos. Ou melhor, pelas minhas balas. Eu, que acreditava não dar para a coisa, passei a gostar da sensação que me invadia. Uma mistura de ódio e tesão. Liberava tudo o que estava lá dentro, contido numa caixinha. O mal me fazia bem. Meu bem era o mal que eu fazia. Pai deve de estar orgulhoso, sabia que ia me adaptar. Tá no sangue dos Costa e Silva a morte. Não pretendo fugir dessa sina. Afinal, quem puxa os seus, não degenera.