Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

sábado, 19 de outubro de 2013

Uma pausa


Por: Viviane Cabrera




No ocaso da existência,
um respiro,
um mergulho na essência.
Um lívido suspiro
antes de retornar ao normal,
antes de sangrar-se na rotina habitual.

Na solidão de pensamentos,
um feixe mal feito de sonhos
enrolados nos cumprimentos
de compromissos tristonhos
da esperança que se carrega,
tão pesada que a alma enverga.

Diante de um abismo,
mil coisas pode-se lançar à escuridão.
A confusão de cores converte-se ao anacronismo
a que resume a dor que exprime alma e coração.
Para isso, nem mesmo serve o exorcismo.
Pois a exatidão do silêncio vem mostrar
que, por vezes, coisas há que não se pode explicar.

Encerro essa tentativa à esmo de se fazer entender
com extremo apreço à solidão.
É ela a única que poderá compreender
o que se passa cá dentro com a lassidão
parasita instaurada em mim.
Só a ela se pode confessar e descansar, enfim.





sábado, 12 de outubro de 2013

Judite



Por: Viviane Cabrera







Judite nasceu no seio de uma família católica apostólica romana. Foi batizada aos três meses de idade, fez primeira comunhão aos sete, crisma aos quinze e casou-se aos dezoito com o ministro da eucaristia da paróquia que frequentava.

Rezava ao despertar, para que Deus protegesse e guiasse seu dia. Entoava cânticos de glória ao anoitecer, agradecendo por mais uma jornada bem sucedida. Para cada coisa em sua vida, havia um ritual que realizava com muito rigor. Por exemplo: jamais saía de casa sem fazer o sinal da cruz e rezar ao seu Anjo da Guarda. Repetia o mesmo sinal quando passava em frente de cemitérios e igrejas, como forma de respeito. 

Salmos xerocados ficavam guardados em sua carteira para na hora de algum aperto, recorrer ao altíssimo, pedindo intercessão para solucionar seus males. Santinhos de Nossa Senhora das Graças, Santa Edwiges, São Francisco e Santo Antônio também lá se encontravam minuciosamente colocados para uma emergência.

Chegava no trabalho e antes de qualquer coisa fazia uma prece. Tudo seu era cuidadosamente depositado na misericórdia do Todo Poderoso. Era feliz assim. Julgava ter mais do que precisava, que o seu Deus era por demais generoso em lhe dar um trabalho em que ganhava um salário mínimo e fazia uma jornada de 72 horas semanais. Estava bem. Tinha seu marido, que era um homem bom e pacato, e um filho esforçado. Samuel, com 15 anos, desdobrava-se para agradar os pais e já dava mostras de que teria um futuro brilhante como cientista ou coisa do gênero.

O semblante de Judite ostentava um sorriso plástico. Era o tempo todo a mesma feição. Fosse na dor ou na alegria, lá estava ela sorrindo por acreditar que o Deus que tudo vê e tudo sabe iria conduzir as situações para o melhor.

Segunda-feira. Judite se espreguiça na cama ao ouvir o despertador avisar a hora: sete da manhã. Levanta-se e lê alguns trechos de seu salmo favorito:

“Pois que se uniu a mim, eu o livrarei e o protegerei, pois conhece o meu nome. Quando me invocar, eu o atenderei. Na tribulação estarei com ele. Hei de livrá-lo e o cobrirei de glória. Será favorecido de longos dias e mostrar-lhe-ei minha salvação”.

Logo depois, um rápido banho e engolir um café feito às pressas, para não se atrasar. Chega ao ponto de ônibus, mas o que costuma pegar acaba de sair lotado. Após 30 minutos, um novo ônibus que lhe serve, mas igualmente lotado. Dessa vez, escolhe ser mais uma ali dentro. O importante é chegar no horário, ainda que sem uma estrutura digna para isso.

Desceu da lata móvel e olhou no relógio. Caso não se 
apressasse, chegaria cinco minutos atrasada. Teria de completar o percurso de dois quarteirões rápido. Como sempre, passou em frente à igreja e, antes de atravessar a rua, fez o sinal da cruz em respeito à “Morada do Senhor Deus”. Saiu da calçada e deu sete passos. Nesse curto intervalo de tempo, um carro em alta velocidade atropelou Judite, jogando seu corpo esguio para o alto. Quando retornou ao asfalto, cheia de sangue e fraturas expostas, seus olhos eclipsados pediam socorro – já que a voz lhe era rara no momento. O carro seguiu em fuga. A bolsa com a carteira recheada de orações e salmos, caiu no lado oposto ao de sua dona.

Uma multidão logo cercou Judite, ali arfando o peito para tentar respirar. Ela pediu para que chamassem o padre da paróquia ali da frente. Queria confessar-se, pedir benção e, se necessário, uma extrema unção. Uma senhora urgentemente trouxe o religioso ao local e o colocou diante daquela cena repulsiva, tal era o estado da mulher estendida no chão.

_ Padre. Sinto que minhas forças estão se esvaindo. Não tenho muito tempo. Só quero falar que minha vida toda fui temente a Deus e fiel à promessa do Altíssimo. Procurei ser alento, sal da terra e luz do mundo, de quem cruzasse meu caminho. Agora, diante da morte, apenas quero saber uma coisa: É assim, então, que tudo acaba? No vazio de um instante estéril e opaco?


O padre não teve tempo para responder. Assim que disse essas palavras, Judite foi invadida por uma dor lancinante e, em seguida emudeceu para sempre. O pároco fechou seus olhos e fez um sinal da cruz em sua testa. Melhor assim. Talvez a verdade fosse a infernal confirmação de um grande equívoco.