Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Da flor e do resto


Por: Viviane Cabrera





Laranjeira em flor,
laranjeira em flor.
Seu perfume tem sabor
da sublime suavidade
que aos olhos cansados é um pouco de felicidade.
Tem jeito de tarde sem fim.
Um vôo leve de querubim.
De riso frouxo de criança.
De passo novo de dança.
E o sol majestoso que no céu se esparrama
lança raios sobre a verde rama,
fazendo destaque à natureza.
Fazendo ressaltar aos olhos a simples e real [beleza.
Laranjeira em flor,
Laranjeira em flor.
Nesse encantamento esqueço a dor
de ter aos pés um grilhão
que aperta também o coração.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Era uma vez no trem


Por: Viviane Cabrera







Dia desses no trem, entrou uma moça vendendo chiclete, amendoim, bala. Essas coisas. O discurso parecia ser comum aos vendedores ambulantes que batem perna de vagão em vagão dos trens da CPTM de São Paulo. 



- Boa tarde, pessoal! Tô aqui, humildemente TRA-BA-LHAN-DO. Tentando fazer um dinheirinho pra SO-BRE-VI-VER. Trago aqui a novidade da "marca tal" que lá fora está de R$ 2,00 a R$ 3,00. Mas na mi-nha mão você só paga R$ 1,00! - falava em tom firme e voz alta espaçando as sílabas de certas palavras uma jovem morena, cabelo crespo mal alisado, olhos grandes e negros, rosto fino. Devia ter lá pelos seus 18 anos. Não mais do que isso.

Cocei a cabeça. Essa história de ouvir sempre as mesmas coisas cansa. Foi quando ela prosseguiu, tirando o produto que vendia e colocando um na mão de cada pessoa do vagão e continuou a falar.

- Olha só! Ajuda aí, pessoal! Minha sogra morreu e preciso de dinheiro para fazer um churrasco pra CO-ME-MO-RAR! Tá todo mundo CON-VI-DA-DO! 

A gargalhada foi geral. Ao passo de alguns segundos, as pessoas colocavam as mãos nos bolsos e fuçavam nas bolsas para caçar moedas. Muitos compraram. E todos felicitando a vendedora pelo "acontecimento". Eu fui uma delas. 

A moça já deve ter uma certa experiência e observou que os usuários desse tipo de transporte carregam no semblante o cansaço. Matou dois coelhos numa cajadada só: transformou o cansaço, sofrimento em risadas e ali atingiu um bom faturamento. 

O trem chegou na estação. A porta se abriu e lá foi ela com sua mochila nas costas, correndo para não ser apanhada pelos guardas. Só esqueci de uma coisa: perguntar onde e quando seria o churrasco. Pena.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Reticências



Por: Viviane Cabrera





Dia desses, recebeu um sms no celular que a deixou um tanto balançada. Era um ex-amor. Desses de sentimentos vagabundos que se quer esquecer. Num conjunto de frases soltas, mas que se interligavam pela mesma linha de raciocínio, a mensagem dizia: "Saudade de você. Preciso te ver. Pensando muito em nós".


Não entendeu. Isso porque o tal "nós" não existia há algum tempo. Pusera um ponto final, pois via naquilo tudo uma grande armadilha, cuja qual sabia que sairia machucada. E, como forma de preservar-se de mais uma decepção, decretou o fim do que chamavam de relacionamento e afastou-se. 

Contudo, sentiu um certo frio na espinha. Talvez ainda restasse algum sentimento. E num ato de pura curiosidade, respondeu ao rapaz. Sem colocar palavras que de fato se ligassem ao que ele lhe mandou, perguntou como estava. Não demorou muito para sua caixa de entrada receber pelo menos umas cinco mensagens do sujeito. Empolgado, falava que estava bem. Seu único problema era não tê-la ao seu lado. Reclamava de saudades e queria nova chance. Inclusive forçando um encontro para conversarem olho no olho.

Por um momento, ela parou. Indagações variadas surgiram em sua mente e inquietaram seu coração. "Por que não tentar mais uma vez?", pensou. No entanto, a mesma certeza de sempre logo a invadiu: era preciso preservar-se de novas decepções. Fazia coleções delas e já estava cansada de ter de carregar seu peso. 

Ficou algumas horas olhando as mensagens, uma por uma. Precisava ter convicção para responder. Até que decidiu acabar com aquilo de vez. Respirou fundo. E numa sequência de dígitos é que saiu um: "Vou pensar".

 Pediu para que ele não ligasse ou a procurasse novamente. Repetiu que iria pensar. Taxativa, ela excluía assim o ponto final, a vírgula, interrogação e exclamação. Colocara reticências. Preferiu deixar no ar um talvez por entre as frestas da cortina de um futuro possível. Foi então que a esperança dele fez ponte no abismo que os separava. Ela não achou bom nem ruim. Quem sabe? Poderia ser um caminho a seguir mais tarde.