Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O destino de Lilith


Por: Viviane Cabrera





Era uma vez uma dessas histórias simples e que prenunciava final feliz. Aconteceu não muito longe, mas nem tão perto. Só o que se pode afirmar é que a amiga de uma amiga de uma amiga minha era contraparente da pessoa em questão.

Lilith florescia vida afora e buscava para si o destino de sossego que via brotar em sua família. Casar, ser feliz e bem amada. Ter filhos, netos e bisnetos. Morrer amparada por uma família criada por ela. Bem como sua mãe, sua avó. E como a mãe de sua avó e a avó de sua avó. As escolhas – se é que podiam ser nomeadas como escolhas – repetiam-se há gerações. Talvez fosse coisa de sangue, da raça daquelas mulheres. Ou talvez, apenas uma grande falta de criatividade que as acometia.

Nascera para a carreira de esposa, mãe e dona do lar. Do contrário, teria vindo com outro sexo – como dizia o pai. Nas brincadeiras de criança, a mãe ensinava a filha a fazer comida nas panelinhas rosadas de plástico. Quando da primeira menarca, a avó correu ensiná-la a bordar, costurar, a cozinhar.

A mãe a deixava livre para passeios e para experimentar o que bem quisesse, apesar dos protestos do pai, sempre ciumento. Queria que a filha aproveitasse o que a rigidez da educação de seus pais não permitiram: um pouco de vida antes de se casar.

A moça Lilith era vivaz. Possuía grande vontade de buscar respostas, de se aventurar, de sorrir até sem motivo, de tentar compreender os porquês da existência. Do tipo que precisava abraçar o mundo para sentir que tudo aquilo fazia algum sentido.

Sugava a seiva que extraía de cada instante. Minuto a minuto, como se fosse o último. Adorava viajar sozinha. Outros rostos, novos lugares e situações empolgantes. Queria eternizar esses momentos, engarrafa-los, aprisioná-los dentro de si.

Mas sua ânsia por liberdade tomou outro rumo ao se apaixonar por um homem chamado Adônis, um empresário amigo de seu pai. Envolveu-se tanto que voltou a querer o ar sereno que as mulheres de sua família desfrutavam ao lado dos maridos – coisa que talvez nunca tenha saído de sua lista de desejos. Tão logo se conheceram, noivaram e casaram. Os filhos vieram em seguida: dois meninos e uma menina.

Sua vida passou a ser cuidar da bela casa em que moravam, que ficava no belo bairro da mais bela cidade do mundo. Seus filhos permaneciam impecáveis graças ao dispêndio que a anulação de sua vida permitia e aos cuidados que dedicava ao trio. Presa às responsabilidades, Lilith já não vivia como antes.

Ao se levantar, interrogava o espelho, tentando descobrir onde aquela jovem de antes foi parar. O que percebia era que o tempo passava como um trator sobre si e, impiedoso, jogava pás de cal sobre o terreno que outrora foi fértil. Todos os dias eram iguais, sob o mesmo ritmo e constância da rotina marcada e envenenada de acordo com a escolha que fez.

O que mais lhe envenenava mesmo era o casamento. Ver o que era fogo de um amor pleno reduzir-se a brasas que tendiam a apagar conferia tamanho amargor a sua alma que gerava angústia. Sempre tão intensa, tinha como inconcebível que aquilo pudesse acontecer justamente com ela.

Seus pensamentos passeavam por lugares os quais já visitara e que estava, então, impossibilitada de ir. Às vezes, em meio a conversas com os outros, perdia-se nesse trajeto e se dispersava por completo das situações. O marido julgava constrangedor e repreendia a esposa. Ela, anestesiada, já não ligava. As memórias eram a morfina para as chagas abertas que trazia na alma.

Adônis e os filhos cismaram de viajar em um feriado de Páscoa. Lilith fingiu uma indisposição qualquer de última hora e ficou em casa. So-zi-nha. Quanto tempo fazia que não ficava sozinha? Já perdera as contas. Perdera as contas, a paciência com as coisas e as pessoas, e a vontade de prosseguir daquele jeito.

Decidiu lavar a casa toda. Esfregão, escovinha, água e sabão, panos e mais panos para secar. Cera para brilhar o chão. Lustrar móveis, arrumar os livros nas estantes e os enfeites nas prateleiras. Trocar as roupas de cama de todos os quartos. Tirar os lixos. Aparar a grama do jardim, colocar ração para o cachorro. Alpiste para os pássaros e não se esquecer de escancarar a porta da gaiola.

Terminado o serviço na casa inteira, preparou um banho com sais na banheira de louça antiga. Mas antes, tomou uma ducha. Ao olhar para o ralo, percebeu que permitiu por muito tempo em sua vida que ela própria e as coisas que realizava fossem pelo cano.                    

Deitou-se leve nas águas mornas que envolviam o corpo. Adormeceu certezas e angústias enquanto fechou os olhos e se deixou encharcar. Levantou-se, enrolou uma toalha no corpo e foi na direção do guarda-roupa. Escolheu o melhor vestido e sapato, o melhor perfume e a maquiagem preferida. Pegou uma caixa no armário do marido e foi até a sala.

Em passadas lentas pela casa, notou que o chão estava mais limpo do que nunca. Ligou a vitrola e colocou um vinil barulhento. Um maxixe do tempo de sua avó, relíquia que ganhara da parente. Dançou, rodopiou, se libertou.

Depois desse rito, pegou a caixa que tirara do armário do marido. De dentro, Lilith sacou uma arma e a enfiou na boca. Respirou fundo. Pensou nos dias felizes. Fechou os olhos e puxou o gatilho.


O chão branco deu lugar ao vermelho intenso do mar de seu sangue. Foi-se em busca de mais uma viagem. Só que dessa vez, sem volta.

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