Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O pitoresco caso de uma existência

Por: Viviane Cabrera







Sem luz. Sem sons fortes. Sem possibilidade de movimentação. O breu era constante e a vida escorria das mãos daquele homem tal qual água escapa fácil pelo ralo.

Nascera em um dia de sol escaldante. Era fevereiro. O céu conservava-se limpo, sem nuvens. O pai fumava charuto com amigos e familiares, na sala de estar ao estilo art noveau, para comemorar a chegada de um varão. O espaçoso ambiente acarpetado ganhava uma aura pesada de expectativas sobre o novo ser que ali agora habitava.

A mãe procurava achar forças, depois de um parto complicado feito em casa. As avós faziam milhares de recomendações em relação ao período de dieta da mulher e aos cuidados que seriam necessários com o pequeno.

O menino abriu os olhos para avistar um mundo de novidades. Foi crescendo e descobrindo o que dantes jamais experimentara. Sentiu fome, frio. Ficou alegre. Triste. Chorou e sorriu. Amou e desamou. E nessas experiências e contato com os outros, foi tornando cada vez mais concreta a humanidade em si.

Tudo seguia conforme a lógica do tempo, mas não a dele. O garoto observava a tudo e interiorizava aprendizados. As verdades, os acontecimentos, batiam em sua alma com a violência de pedradas. As cicatrizes que isso produzia eram intratáveis. Verdadeiras chagas abertas. E a dor era tamanha que os dentes rangiam e sua face se contorcia de sofrimento. Inclusive, deixou de sorrir.

Foi quando se tornou homem, carregando o peso de diversas responsabilidades, cobranças e expectativas alheias. Apesar dos pesares, desconectava-se pouco a pouco. O silêncio passava a fazer morada nele e cada dia mais, falava menos.

Arrastava-se, sufocado pelo que não dizia. O olhar era de alguém em franco desespero, pedindo socorro. Sua figura começou a afastar as pessoas.

Pensou que seria bom tentar uma reaproximação. No entanto, refutava isso logo em seguida. Qualquer esforço no sentido de agradar ou chamar o outro para si parecia-lhe em vão.

Resolveu abandonar a ideia e tudo mais. A necessidade de se libertar era emergencial. Caso não ocorresse, haveria uma explosão em breve. Sabia que algo estava para detonar dentro dele e tinha medo do possível resultado. E em virtude do esmagamento que a realidade lhe causava, precisava tomar uma atitude. Para ontem.

Partiu na calada da noite, tendo nas mãos apenas o peso da própria existência. O caminho era uma incógnita. O destino final, igualmente. Dos olhos brotavam lágrimas que traziam à tona o que antes se mantinha represado. Enquanto isso, os pés descalços tateavam a estrada.

A noite começava a se despedir e o sol vinha pedir passagem. Ao longe, os olhos cansados avistavam um barranco com uma fenda. Decidiu ali se abrigar.

Três dias e três noites corriam diante do homem. Ele somente fechava os olhos. Olhava para dentro, tentando achar algo que se perdeu. Já não tinha fome, frio ou medo e entregava-se cada vez mais a um resignado silêncio.

Até que uma tempestade fez com que houvesse um deslizamento de terras e o deixasse soterrado. Despertou quando já não teria jeito de fugir.

De repente, veio à cabeça os parentes. Conseguiriam eles encontrá-lo no meio do nada e esmagado como estava ?

Riu com pesar e quebrou o silêncio pela última vez: “Como poderiam me encontrar se nem eu o consegui?”.

Pegou todo o ar que pode e, num suspiro derradeiro, libertou-se.

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