Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

domingo, 29 de junho de 2014

Ar de passarinho


Por: Viviane Cabrera





Numa lânguida tarde de outono

É no silêncio do vento que me abandono
A observar o que está em volta
A ir-se embora.

Mas antes,
Interiorizo os detalhes de minha obsessão constante
Em detectar memórias que suscitem gostos e sentimentos
Que marquem um momento.

As folhas no gramado gasto multicoloridas
Vem me entregar uma passagem só de ida
Às profundezas da alma minha
À curtir o que a existência cozinha.

Das árvores surge o canto de um passarinho,
Lá do alto, de seu ninho,
A narrar sua afetividade com o lugar,
Coisa inteira que se confunde consigo para acrescentar.

Canto intenso e dolorido
Que tenta ofuscar o alarido
Que sufoca a tudo,
Que tenta manter seu entorno mudo.

Entre altos e baixos a sublime melodia
Há de em mim fazer moradia
Enquanto eu puder respirar
Para que eu possa na vida mergulhar.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Escola


Por: Viviane Cabrera






Bate o sinal para a entrada. A inspetora de alunos convida a todos a entrar nas salas com um sutil empurrão nada carinhoso. E, uma vez dentro da sala de aula, o dia começa. O professor enchendo a lousa de matérias e eu tendo de copiar tudo no caderno. A mão cansa e a alma também. Sempre a mesma coisa.

Nove e meia e o intervalo chegou. Desço para o pátio com o Fábio, o Caio e o Jean pra dar aquela zoada e desestressar. A gente conversa, ri e mexe com as meninas. Só de leve, porque na escola todo mundo fica em cima, enchendo o saco e vigiando o tempo todo.

Gongada mais uma vez. Hora de subir pra sala. Dobradinha de matemática. A lousa lotada de contas repletas de letras e números que não dão resultados óbvios. Bate aquela preguiça de fazer conta grande e complicada. Não que eu não saiba, mas é treta.

Como ouvi o professor dizendo que é pra nota, bora me aplicar para conseguir uns pontinhos. Esse semestre tá difícil passar, afinal, já derrapei em algumas provas. Tá corrido. Faltam apenas cinco minutos para terminar o exercício para entregar e eu não fiz nem metade.


O sinal da escola marca o fim. Acabou um dia de aula. Foi-se uma oportunidade, mas amanhã vem outra. Por enquanto, vou esperar mais um sinal. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Dois

Por: Viviane Cabrera




Dois.
Algo para durar até depois
Do início e do que não tem fim.
Sutil e leve feito cetim.

Unidos pelo mesmo ensejo
De sedimentar um amor e realizar o desejo
Existente na combinação de duas almas,
Mistério do interior de mãos e suas palmas.

Construção das vivências
De inúmeras experiências
De boas e más situações
Unindo retalhos e frações.

O quanto de mar
Há de um dia inundar
O céu desse amor
Para destruir barreiras e anular toda dor?

Na esperança desse momento
Seguem os enamorados com tal pensamento
Fixados num eterno instante,

O de fluir numa felicidade fulgurante.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Silêncio

Por: Viviane Cabrera





O silêncio é cinza,
É vácuo de uma tarde ranzinza.
É rua escura e vazia,
Numa criação árdua de carpintaria
A desfazer as imperfeições de ruídos
Para não sobrar estampidos
Que perturbem a ordem
E que no coração eclodem.

O silêncio é barulhento.
Mais alto que qualquer argumento
Que o pensamento atrapalha,
Avacalha
E nos bota em confusão
Distraindo na intenção
De perceber o que há ao redor para ecoar
O que cá dentro está a incomodar.

Na quietude do tempo
Um vento
A interromper uma multidão
Que grita e diz não
Às pausas necessárias que a vida exige,
Ao acaso que a nau da existência dirige
Pelo mar sem fim
Do silêncio que se instaura em mim.

Não há o que fazer,
Posto que meu prazer
Está em serenar o que cá dentro grita,
Sufoca e incita
A uma violenta revolução
De sangue, suor, gozo e criação,
Que me sobra para provar
Do silêncio o seu mais puro néctar.



sexta-feira, 13 de junho de 2014

O pitoresco caso de uma existência

Por: Viviane Cabrera







Sem luz. Sem sons fortes. Sem possibilidade de movimentação. O breu era constante e a vida escorria das mãos daquele homem tal qual água escapa fácil pelo ralo.

Nascera em um dia de sol escaldante. Era fevereiro. O céu conservava-se limpo, sem nuvens. O pai fumava charuto com amigos e familiares, na sala de estar ao estilo art noveau, para comemorar a chegada de um varão. O espaçoso ambiente acarpetado ganhava uma aura pesada de expectativas sobre o novo ser que ali agora habitava.

A mãe procurava achar forças, depois de um parto complicado feito em casa. As avós faziam milhares de recomendações em relação ao período de dieta da mulher e aos cuidados que seriam necessários com o pequeno.

O menino abriu os olhos para avistar um mundo de novidades. Foi crescendo e descobrindo o que dantes jamais experimentara. Sentiu fome, frio. Ficou alegre. Triste. Chorou e sorriu. Amou e desamou. E nessas experiências e contato com os outros, foi tornando cada vez mais concreta a humanidade em si.

Tudo seguia conforme a lógica do tempo, mas não a dele. O garoto observava a tudo e interiorizava aprendizados. As verdades, os acontecimentos, batiam em sua alma com a violência de pedradas. As cicatrizes que isso produzia eram intratáveis. Verdadeiras chagas abertas. E a dor era tamanha que os dentes rangiam e sua face se contorcia de sofrimento. Inclusive, deixou de sorrir.

Foi quando se tornou homem, carregando o peso de diversas responsabilidades, cobranças e expectativas alheias. Apesar dos pesares, desconectava-se pouco a pouco. O silêncio passava a fazer morada nele e cada dia mais, falava menos.

Arrastava-se, sufocado pelo que não dizia. O olhar era de alguém em franco desespero, pedindo socorro. Sua figura começou a afastar as pessoas.

Pensou que seria bom tentar uma reaproximação. No entanto, refutava isso logo em seguida. Qualquer esforço no sentido de agradar ou chamar o outro para si parecia-lhe em vão.

Resolveu abandonar a ideia e tudo mais. A necessidade de se libertar era emergencial. Caso não ocorresse, haveria uma explosão em breve. Sabia que algo estava para detonar dentro dele e tinha medo do possível resultado. E em virtude do esmagamento que a realidade lhe causava, precisava tomar uma atitude. Para ontem.

Partiu na calada da noite, tendo nas mãos apenas o peso da própria existência. O caminho era uma incógnita. O destino final, igualmente. Dos olhos brotavam lágrimas que traziam à tona o que antes se mantinha represado. Enquanto isso, os pés descalços tateavam a estrada.

A noite começava a se despedir e o sol vinha pedir passagem. Ao longe, os olhos cansados avistavam um barranco com uma fenda. Decidiu ali se abrigar.

Três dias e três noites corriam diante do homem. Ele somente fechava os olhos. Olhava para dentro, tentando achar algo que se perdeu. Já não tinha fome, frio ou medo e entregava-se cada vez mais a um resignado silêncio.

Até que uma tempestade fez com que houvesse um deslizamento de terras e o deixasse soterrado. Despertou quando já não teria jeito de fugir.

De repente, veio à cabeça os parentes. Conseguiriam eles encontrá-lo no meio do nada e esmagado como estava ?

Riu com pesar e quebrou o silêncio pela última vez: “Como poderiam me encontrar se nem eu o consegui?”.

Pegou todo o ar que pode e, num suspiro derradeiro, libertou-se.