Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O silêncio em mim


Por: Viviane Cabrera





Buzinas. Uma sinfonia delas. Acordei com um buzinaço desgraçado bem debaixo da minha janela. Bem que queria gritar uns xingamentos, mas a voz não saía. Nada físico. Só acho às vezes que não vale a pena.

Levantei praguejando. Tinha que ir trabalhar. As pessoas de sempre, a mesma rotina de sempre. A mesma merda que não muda nunca.

Um pé para fora de casa e assim tudo começa. Gritaria de vizinhos. Carro, caminhão, ônibus. Gente, trem, metrô. Vendedores ambulantes, falatório. Sinal amarelo, vermelho, verde. Passam fluxos de várias coisas. Inclusive de pensamentos.

Penso nessa panela de pressão a que estamos expostos diariamente. Saímos de casa já imaginando de que forma a gente vai se foder. Temos a certeza, só não sabemos como. E ficamos então predispostos a estar na defensiva, criando uma carapaça grossa contra tudo o que está a nossa volta. Nos isolamos, nos tornamos egoístas.

Chego ao trabalho e encontro o pessoal bem-humorado. Mas que merda! Como pode alguém estar feliz com essa vida? Achar legal ser explorado, maltratado, subestimado, menosprezado, e ainda sorrir? Voltar para casa enlatado, esmagado pela multidão e sorrir. Eles não se revoltam, não gritam! Isso não entra na minha cabeça. Sinceramente.

Acaba o expediente e a volta para casa se torna outro suplício. Estar muito próxima de estranhos é um paradoxo presente nos transportes públicos. São rostos cansados e que dizem muito, sem nem mesmo precisar de abrir a boca, sacolejando com as latas velhas que nos transportam.

Ao fim de tudo, na cama, dou-me ao luxo de refletir sobre a vida. E é tanto para dizer! Uma profusão de palavras, sensações e sentimentos que teimam em encruar cá dentro. Esboço, de vez em quando, falar um pouco a respeito. Mas o barulho ensurdecedor da rotina encerra em um soluço oco toda essa mistura. E o que era para ser uma avalanche, torna-se silêncio próprio de Morfeu no adormecer involuntário da vida: um momento de serenidade para depois começar de novo.
  

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