Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

domingo, 4 de agosto de 2013

Domingo de Manhã


Por: Viviane Cabrera








A semana inteira acordando em um horário insuportavelmente cedo. Sábado idem. No domingo, é óbvio, que a manhã foi feita para dormir. Mas para os Testemunhas de Jeová, não. Reservam os domingos de manhã para bater de porta em porta, na esperança de serem os primeiros a nos desejar bom dia - e pelo horário em que aparecem, são mesmo! - e fazem a pergunta comum ao discurso de todos eles: "Você tem um tempinho para ouvir a palavra de Deus?".

Pois hoje me enchi desse negócio. Isso porque, creio, a divina força está naquilo que encara-se como um bem. Fé não é algo que se ganha na base do discurso, tentando convencer a qualquer custo. Fé você tem e pronto. Pode ser fé em uma pessoa, em uma coisa, em uma entidade de luz. Dane-se em que se tem fé. O importante é tê-la. Dessa forma, a vida torna-se um pouco mais suportável.

Oito horas. Manhã morna e gostosa na cidade de São Paulo. Bom para continuar enrolada no edredon e curtindo esse momento. Só que não. A campainha toca. Pode ter zilhões de moradores na casa. Mas todos se apertam nas cobertas, esperando que uma boa alma os deixe continuar nessa situação. Juro que tentei. Porém, a tal da alma boa teve de ser eu. Infelizmente.

Abro a porta e dou de cara com duas senhoras no portão. Pareciam tão dispostas àquela hora que me dava raiva. Perguntei o que queriam, mas a bíblia embaixo do braço já denunciava a intenção delas. Fizeram a tal da pergunta. "É hoje que me vingo!", pensei.

- Você tem um tempinho para ouvir a palavra de Deus? - disse a mais velha, com cabelo enrolado em um coque impecável, um vestido bege, largo e comprido.

- Acabei de ouvir - respondi - estava falando com Ele agora. Aí tocou a campainha e vim atender.

Elas se olhavam sem entender nada. Decidi continuar.

- É sério! Não acreditam? Ele bate uns papos comigo de vez em quando. Sujeito bom o cara!

- E o que ele te fala? - quis saber a mulher que acompanhava a mais velha. Devia ter lá pelos seus vinte e poucos. Tinha uma aliança que mais parecia um canudo no dedo. Cabelo solto muito comprido e liso, abaixo da cintura. Usava uma saia comprida branca, uma blusa vermelha, o rosto lavado e sem maquiagem. Trazia a ingenuidade expressa no olhar.

- Poxa! Tanta coisa que nem sei por onde começar. - aí comecei a inocular o mesmo veneno que elas costumavam disseminar porta à porta - Vocês tem um tempinho para a palavra de Deus?

- Claro! - disseram as duas simultaneamente.

- Então. Certa vez eu perguntei sobre se a depilação era vaidade pura. Ele me disse que era questão de higiene.

Elas se olhavam e voltavam a atenção para mim.

- Outro dia ele me disse que quem se apresenta como testemunha dele é mentiroso. Porque é impossível alguém ter tanta idade assim e sair impune à vida, sem a morte. Com exceção de Sísifo e do Niemeyer, é claro. Mas esses também foram laçados na curva, apesar dos atalhos.

Quis rir. Mas elas não entenderam a piada. Resolvi prosseguir.

Falei tanta abobrinha que me perdi no tempo. Sei lá quanto fiquei com aquelas duas no portão, falando de uma forma didática e quase que desenhando um Deus que nada tinha com o que elas pintavam. Através da minhas groselhas, a intenção era desmistificar o Deus delas e mostrar que esse ser superior quer mais que as pessoas vivam bem, sem grilos, sem barreiras entre elas. 

- Mas você frequenta igreja? - indagou a velha com certo ar de deboche na voz.

- Não e nem pretendo. O negócio é fazer o bem. Promover o bem. Cuidar para que ele prevaleça. O resto é balela e serve apenas para disseminar ódio e preconceito.

- Então você não serve a Deus. Quem não frequenta a igreja, serve ao Diabo. - acusou a jovem, enérgica.

Respirei fundo. 

- Verdade. Sirvo ao demônio. Por isso mesmo que vou chamar minha pitbull para dar a penitência certa a quem não tem o que fazer e acorda os outros cedo no domingo. 

Gritei pelo nome da cadela e a dupla santa saiu em disparada, ladeira abaixo. Ri da cena, apesar daquilo ter sido politicamente incorreto. Mas, poxa! E o meu sono interrompido? Como fica?

Nisso tudo, aprendi que quando o bem não dá jeito nas coisas, a saída é apelar ao Diabo, mesmo.  Ninguém mandou mexer com quem estava quieta - e dormindo! E disso, Deus é testemunha.



A descoberta da Malu

E quando sua filha de sete anos faz poema, vale uma postagem.

Da Malu Carvalho.







"Poesia 





que pinga todo dia.




Poesia que ando




cantando. 





Poesia quem canta,





não é pilantra.





Poesia quem canta,




a alma dança".