Literária sempre. Monótona, jamais.

Devaneios de um protótipo humano na infoesfera.

domingo, 20 de junho de 2010

Ultrapassando Barreiras, Criando Caminhos

Diante de obstáculos e adversidades, Lise Forell usa sua arte como forma de manter intacta sua liberdade.


Por Viviane Cabrera


Holocausto – Lise Forell dá cores ao horror que enfrenta nos tempos de juventude.


Cores vivazes, pinceladas firmes, traços fortes. Vida e arte combinam-se, mostrando que a artista plástica Lise Forell é tão intensa quanto suas obras. No auge de sua existência, a matriarca de 86 anos fuma calmamente próxima a mesa de canastra. A fumaça do cigarro confunde-se com a névoa de suas lembranças.

As paredes de sua casa são de um branco reluzente e têm em si os quadros da pintora dando movimento ao ambiente. E em meio a tantas cores e formas, um gato albino de nome Ice salta de um móvel a outro da sala. Das muitas peculiaridades de seu lar, o que mais intriga é a sensação de se estar num mundo à parte. A atmosfera é de bonança após a tempestade.

E turbulência é algo que Lise conhece bem...

Gênesis


Bravamente uniformizado, o tenente Otto Forell combate ao som de memes entoados por sacerdotes e presencia todo o sangue derramado na Primeira Grande Guerra Mundial, chacina que leva muitos de seus companheiros de armas. São horrores que ficaram gravados em sua memória e que pautam suas reflexões sobre conduta a partir do fato.

Condecorado e bem visto pela sociedade, casa-se com uma moça astuta, porém de poucos atrativos físicos, chamada Grete Fischel. Esta consegue transformar o ex-herói de guerra em namorado indeciso, daí para noivo apagado e, finalmente, em marido submisso. Quando, em 1924, nasce Lise, a mãe vê a oportunidade de realizar enfim suas ambições enquanto para o pai a primeira e única filha do casal representa a tímida esperança de passar adiante alguns de seus ideais. Para a mãe, a criança deveria ter a beleza que nunca pode ter para si. Para o pai, a pessoa que se formava seria íntegra e digna em suas convicções. No lugar das exigências, dedica apenas amor e atenção à pequena.

Desde que o mundo assim o é, acomodamo-nos ao formato machista da sociedade em que as mulheres aí estão somente para servir. Cuidar da casa, criar os filhos de forma impecável, atender ao marido virtuosamente, ser boa filha e cidadã. Esse é o modelo convenientemente imposto ainda na fase pueril.

Com pressões advindas de diversas esferas de poder sobre o ser humano fêmea, a mulher abdica de si para assumir ao marido, filhos e demais cargas do casamento. Dessa forma, anula-se para que assim possa servir ao outro de maneira incondicional, sem reservas. Transforma-se então, em um objeto manipulável em primeiro lugar pelos pais, depois pelo marido e por último pelos filhos. Simone Beauvoir sentencia que não podemos chamar a isso de mulher. “Não se nasce mulher. Torna-se”, diz categoricamente a autora. O que mostra com esse axioma é que não basta surgir sob o gene sexual xx. A percepção de feminilidade vai muito além disso. Sob a égide do existencialismo, afirma que a construção do feminino se dá através das escolhas que se faz ao longo de cada trajetória, seja em qual âmbito for.
Por vários fatores fortemente influenciados pelo acaso, Lise escolhe as veredas que o afetuoso pai lhe apresenta. Graças ao genitor e suas máximas é que constitui suas bases de pensamento, visão de mundo e, mais tarde, adere à ideologia socialista. A mãe decepcionada pela filha não corresponder as suas expectativas, resolve investir na formação educacional da menina.

Entre aulas de francês, patinação, ballet, tênis, natação, inglês, esqui na neve - e outros exercícios físicos e intelectuais - observa através da janela de sua alma as peculiaridades da existência e dos indivíduos, imprimindo essa ótica a seus primeiros esboços. Nas instituições de ensino as quais passa as professoras sempre repreendem seus pais, pedindo para que não a ajudem nos desenhos. O que elas se furtam a saber é que Lise os faz sozinha.


Em busca da terra de Canaã

O momento político europeu afeta sua vida familiar. Tendo como causa principal as imposições do Tratado de Versalhes, a Alemanha, assolada economicamente, insurge-se beligerante sob o comando de Adolf Hitler contra o restante da Europa.

O estadista aproveita-se da situação e finca a bandeira nazista no coração da massa germânica - trapos ambulantes à espera de uma força que os resgate das circunstâncias em que se encontram. São zumbis que obedecem cegamente àquele que lhes aponte uma luz ao final do túnel, uma figura paternalista que tome para si os problemas que enfrentam e os alivie das dores. É o que o povo alemão necessita nesse momento.

Hitler, um austríaco de palavras firmes, mostra à sociedade aquilo que considera os reais causadores do mal que assolou o país: judeus, ciganos, homossexuais, deficientes, poloneses, eslavos e Testemunhas de Jeová. A Europa é contaminada por esses ideais totalitários e os judeus que se recusam a viver em guetos segregacionistas são obrigados a fugir para outras terras.

Preocupada com o rumo dos acontecimentos, Grete resolve enviar a filha para a casa dos avós maternos na Bélgica. A garota então se sente sufocada pelo excesso de zelo e falta da liberdade que tanto preza. Em 1939, com a iminente invasão das tropas nazistas alemãs, foge com seus pais, avós, tios e prima num conversível para a Espanha. Mas com Franco no poder, famílias judias estavam proibidas de entrar em solo espanhol. Marselha passa a ser seu novo destino.

Após instalar-se em uma pensão, consegue vistos a preços acessíveis para o Brasil. Mas só em 1940 é que embarca com os parentes a bordo do navio Alsina rumo à Terra de Vera Cruz. Contudo, repentinamente o navio muda seu curso e ancora em Casablanca. Todos os tripulantes são levados para um ônibus que finalmente desliga o motor em meio a uma paisagem desértica com os dizeres na placa do portão “Camp Sidi El Aiashi”. O coração de Lise estremece.

Para extravasar sua revolta, tal qual Anne Frank - guardadas as devidas proporções - retrata em seu diário a degradação do ser humano num campo de concentração. Compõe, então, Sem Happy End. Como em todo lugar acontece, um delator entrega seus desenhos ao comandante. Este, vendo-se incapaz de julgar tal traição manda-lhe para o chefe de polícia de Casablanca.

E é nesse contexto que encontra sua tábua de salvação. O homem que deveria julgar seu caso interessa-se pela jovem destemida de apenas dezessete anos. Sr. Bourel faz com que Lise e sua família mudem-se para Casablanca. Apesar das intensas tentativas, o chefe de polícia não conseguiu nada mais do que a promessa de um encontro amoroso. Ao passo de quinze dias, Otto consegue novos vistos para o Brasil com a ajuda de organizações para refugiados e embarcam no navio “Cabo de Buena Esperanza”. Em 25 de setembro de 1941, depois de uma viagem marítima de tamanha ansiedade, pisa em solo brasileiro: “Me senti brasileira desde o primeiro momento. Chegamos no carnaval, o clima era maravilhoso. Estávamos no Rio de Janeiro. Os mais velhos criticavam a sujeira, a desorganização e a desigualdade de classes. Mas eu só conseguia prestar atenção no céu”, lembra com um brilho ofuscante nos olhos, “É que na Europa é tão cinza no inverno... E aqui no Brasil, o cenário, o sol e o céu... abrasileirei-me naquele instante”.

Por aqui, quem está no poder é Getúlio Vargas. Simpatizante das ideologias totalitárias toma uma postura centralizadora e autoritária no período que vai de 1937 a 1945. Tratava-se por Estado Novo o resultado de um plano forjado pelos integralistas, que justificava o golpe como forma de proteger o Brasil da ameaça comunista. Apresentado pelos galinhas-verdes ao presidente Vargas, não mais precisou de pretextos para concretizar aquilo que Getúlio mais queria: o poder absoluto em suas mãos.

Algo que associa-se a imagética criada em torno do Pai dos Pobres, é o fato de possibilitar o acesso das mulheres a todos os setores da sociedade com os direitos abstratamente reconhecidos. O hábito sustentado até a atualidade impede a concretização real do ideal revolucionário francês que prega a “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” como forma de garantir justiça a quem quer que seja. Os homens continuam a obter vantagens em vários âmbitos, inclusive no profissional.

Recentemente, um site da internet especializado na divulgação de vagas de emprego trouxe à tona resultados óbvios aos olhos de todos. A pesquisa feita pela empresa comprova com dados numéricos que a diferença salarial entre os dois sexos vem crescendo ano após ano. Apesar de as mulheres serem mais bem preparadas academicamente, a porcentagem desse desnível em 2010 assusta: trata-se de 75,38% de um abismo que afasta profissionais femininos dos masculinos.

Fugir aos paradigmas, correr atrás daquilo que acredita e que faz bem. Essa receita, segundo a artista, é o segredo de sua longevidade e bom humor.


Eva e a Maçã

Grete sofre o martírio de não ver em sua filha as qualidades que queria para si. Contrariando a visão da severa mãe, a criança cresce cheia de atrativos e torna-se uma mulher de fibra.

Na infância, a pequena coleciona pedras, brinquedos, magazines. Entretanto, na fase adulta passa a colecionar conquistas. A bordo do Alsina faz sua primeira, apesar do orgulho ostentado pelo rapaz que dizia jamais se casar com uma judia, Lise transforma numa obsessão o fato de fazê-lo seu esposo e é vitoriosa em seu intento. Porém, o caótico relacionamento com Herbert Lowe Stukart dura o tempo suficiente para que gere um filho, Gregori.

Abandona o marido, pois não se sente bem em ver o amor que tinha - um dia chamas – em brasas prestes a se apagar. Refugia-se ainda grávida na casa de campo de uma amiga. Assim que seu filho nasce, Grete o toma de Lise sob um pretexto que logo cai por terra. Os acontecimentos fazem com que Lise encha sua alma e esvazie num curto período de tempo.

Com os braços e bolsos vazios segue maquinalmente rumo a “Terra Mater”, uma pousada onde já havia passado férias. Faz trabalhos de decoração e pintura em troca da hospedagem e comida. Todavia, recebe dos Bevilacqua muito mais do que isso. É com Leonardo, filho caçula da família, que a fênix trava novo romance. Longe de conseguirem a aprovação da família de Leonardo, os dois deixam tudo para trás e seguem num velho carro para São Paulo.

O desespero da falta de notícias de Gregori dá lugar a um novo alento: nova gravidez e novo casamento – desta vez com a benção de um Rabino. Com um filho a cada um ou dois anos, a família passa a ser integrada por oito pessoas.

Os anos passam e mais uma dança sentimental das cadeiras ocorre, cuja qual Lise já conhece o ritmo e tem jogo de cintura o suficiente para dar a volta por cima. Prepara suas coisas e deixa o lar. Os filhos, em sua maioria já adultos, resolvem trocar o conforto pela companhia da mãe e seguem com ela para outro endereço. Somente após casar-se e tornar-se pai é que Gregori, que sempre viveu com a avó, a chama de mãe. Coisa que preenche o vazio que tinha até então.

Colecionar afetos, pessoas, vitórias. Essa é sua força motriz. As pedras que aparecem no caminho estão lá justamente para serem removidas. E se depender de Lise, o trator estará com o motor sempre em stand by.




Na intimidade de seu microcosmos - Lise Forell e Eu (Vivi Cabrera).


A mulher que não virou esmoreceu


Patrícia Galvão é uma mulher plena do desejo pela vida, convicta de suas ideologias políticas e a frente de seu tempo. Emma Bovary é um ser apagado que veste o uniforme da “mulher padrão” que a sociedade lhe entrega. A primeira, apesar de amar e constituir família, sofre graves pressões da sociedade por sua postura vanguardista. A segunda, aceita a pesada carga sobre seus ombros, mas arrepende-se amargamente. Qual a ligação entre as duas? No emaranhado de seus destinos, ambas escolhem a chave em que está escrito Cafarnaum. A consolação que encontram – uma no engajamento político e também na realização enquanto mulher e mãe, outra no suicídio como forma de escapar da ideia insuportável de ser mais um objeto decorativo – as salva do tédio de se perceber comum.

Lise Forell também teve acesso a essa chave. Casou-se por duas vezes, teve sete filhos e adotou uma criança – por conta da impossibilidade de não mais dar herdeiros ao segundo marido, o que fez com que perdesse o valor aos olhos do esposo. Nos dois relacionamentos, jamais se deixou dominar. Quando sente a impossibilidade da levar adiante o casamento, arruma suas coisas e abandona o ninho. Duas vezes: esse é o número exato para os momentos em que teve de recomeçar do zero.
Coragem, tenacidade, decisão e um singular senso crítico das coisas. Isso definitivamente a ajudou em sua trajetória artística e pessoal. Faz escolhas e sustenta a carga de responsabilidades que advém das mesmas: “Pago qualquer preço por minha liberdade” comenta, “por isso trabalho até hoje e pretendo fazê-lo até onde conseguir. Faço o que eu gosto. Quer incentivo maior?”.

Compõe suas telas seis horas por dia, além de lecionar em seu atelier. Vive das aulas que dá e da comercialização de suas obras. “Sou tão desapegada ao dinheiro que vendo os quadros e esqueço de receber os pagamentos. Além disso, alguns alunos pintam de graça comigo” refere-se a criticas que recebe de pessoas materialistas que prezam mais pelas obrigações do que a própria vida.

Outra distração de que é afeita é o jogo de canastra. Monta campeonatos com suas amigas - senhoras da aristocracia alemã - e com os netos. Aliás, orgulha-se pela mentalidade dos netos ser compatível a sua, ainda que politicamente deixem a desejar – segundo sua visão.

Sobre o atual momento político brasileiro, a judia socialista – como a própria se define – é otimista quanto aos rumos do país: “O Brasil tem muito para crescer e penso que chegará lá. Não troco este país por nada. A Europa, desenvolveu-se até o máximo. Não há mais para onde crescer. Tanto que sem ter mais o que inventar, agora estão afeitos à banalidades e tendem a ir à direita no que tange a política. Para Israel, onde mora a Débora – minha filha que é judia ortodoxa -, também não sei se iria. As pessoas defendem muito os árabes e fecham os olhos para os judeus que ainda são mortos. Coisa de decapitar um judeu e depois jogar futebol com sua cabeça. Por essas e outras é que amo o Brasil. É um lugar pluralista e ecumênico. Aqui todos convivem em plena harmonia. Ou pelo menos, tentam”.

Com uma lucidez e bom humor invejáveis, vive até hoje de suas aulas de pintura e de retratar nas telas o hipotético que nos leva a sonhar, sem deixar de lado sua temática política. Suas obras retratam bem sua visão de mundo. Nada escapa a seus olhos de lince. Pinta para retratar a desigualdade social, corrupção na política, discriminação de qualquer natureza, crítica a costumes e tradições obsoletas que engessam a sociedade, omissão do ser humano diante de determinados assuntos, religião, sentimentos. Participou de várias exposições e ainda hoje recebe convites para viajar o mundo com sua arte - Lise é especializada em arte naif, primitivista.

Avó de 21 netos, tudo o que quer é criar e instigar o criador que está latente no ser humano. “Educo os meus como oriento meus alunos: quero que despertem seus talentos, mas respeito suas particularidades. Não há como ensinar algo pronto. Cada um é cada um”. Pois a fórmula dá certo. Todos estão formados – ou pelo menos a caminho de – em boas instituições de ensino e com um caráter e conduta impecáveis.

Com ar de missão cumprida, Lise Forell desabafa em meio a tragadas de realidade e baforadas de expectativas: “Posso, sem mágoa nem revolta, mergulhar nas reminiscências e cuidar de muitas lembranças. Tanto as más quanto as boas”.







3 comentários:

  1. Olá Vivi! Você foi a fundo em sua pesquisa, hien? É legal ler artigos como esse, que mesmo disfarçados de post, cumprem o objetivo de valorizar, difundir e enaltecer a biografia de quem merece. Com esse texto você presta homenagem semelhante àquelas póstumas, o que, na minha opinião, é louvável, uma vez que vai de encontro à máxima que diz que apenas damos valor quando perdemos. Se seu artigo é fiel à realidade, fico contente em saber que a artista consegue esbanjar alegria mesmo tendo atravessado e superado as dificuldades que você narrou de forma exuberante. Parabéns pelo texto!

    PS. Não sou especialista em nada, mas como entendo que as opiniões podem ser úteis se bem fundamentadas, gostaria de sugerir que você pense na possibilidade de avaliar se você pode estar abusando de "pontos" quando estes poderiam ceder lugar às "vírgulas". Não sou escritor e sequer leio muito, mas fiquei com essa impressão em alguns trechos do artigo.

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  2. Na realidade, Rick, trata-se de um perfil nos moldes do jornalismo literário e não de um artigo. No jornalismo literário usamos o recurso de frases curtas como forma de dar uma certa pitada de suspense ao enredo que se desenrola. =D
    Mas não se acanhe por ter comentado. É nas críticas que paramos para pensar e reconstruímos o nosso agir (ou a escrita, rsrsrs).

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  3. Adorei o artigo. Pessoas interessantes são sempre bem vindas às nossas vidas . Que prazer saber da existência desta senhorinha lúcida e bem humorada,uma artista das telas e da vida.As paredes da casa de Lise bem ilustram sua vida intensa e seu colorido interior . Parabéns !( Pagu tb era uma mulher sensacional !)
    bjo

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